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Sunday, September 28, 2014

VINDIMA

Lá em casa já não há adega, foram-se as cepas atrás do seu dono. Há umas dezenas de anos atràs não havia na aldeia quem não enchesse as suas pipas. Se o verão tivesse apertado, ficava a uva mais doce, a produção minguada, e as falhas de volume baptizavam-se a partir da fonte. Para o mosto desdobrar, argumentava-se, porque quando o baumé é alto demais a fermentação pode retardar-se e o mosto azedar.
- Cantigas, oh! Zé!, no meu não caiu pingo de água, salvo a que veio do céu!
Diziam todos o mesmo, o mesmo é dizer que todos faltavam à verdade. Se estivessem assegurados os 12 da ordem, o vinho aguentava o ano e o pessoal aguentava-se bem com ele. E não havia quem não se gabasse de ter na sua adega a melhor pinga do país.

A vindima era uma festa ao fim de uma actividade penosa e desprezada que empurrava a sair os que encontravam saída. Durante o ano já havia falta de gente capaz para as sementeiras e as colheitas, para descavar, podar, impar, enxertar, arrendar, sulfatar e enxofrar as vinhas. Mas para as vindimas havia sempre gente disponível, menos para alombar com os cestos de posseiro, de verga, até às dornas. Como cantar e comer não calham ao mesmo tempo, na vindima não se importava o patrão que o pessoal levasse o dia a pôr o rol de novidades em dia em vez de lhe comer os cachos. E se alguém arrancava com uma cantilena qualquer, tanto melhor porque se safavam as uvas das goelas dos vindimadores e a vindima ganhava ritmo.

Hoje já não há vinhedos para aqueles sítios partidos em parcelas demasiado pequenas para poderem sustentar alguém. Onde havia um jardim feito de muitos canteiros conquistaram as silvas e as primas delas o seu reino. Um ou outro vai mantendo uns pés de vinha para beber água-pé pelo São Martinho, entreter-se, e não perder a prática, mas é espécie em vias de extinção.

Há dias,  orgulhava-se, num programa televisivo, um vinhateiro de Azeitão da sua vindima mecânica. Fiquei espantado com a invenção, incapaz de imaginar como funcionaria a engenhoca.  Deu-se depois o caso de termos sido convidados para almoçar em casa de um casal amigo, residente para aquelas bandas. E lá fomos para ver aquilo que, à distância, me pareceu pertencer à família dos artópodes diápodes. Não estava o engenho em casa, tinha saído alugada para vindimar numa propriedade vizinha. Mas vimos o modelo em miniatura e ouvimos a explicação do investidor. Que, animado coma evolução da espécie, nos disse que logo que a vindima terminasse e o rebanho de ovelhas desse conta do que sobrasse em folhas e bagos, entrava outra máquina em acção para a poda. A máquina vindimadeira tinha a vantagem de permitir fazer em três dias o que manualmente duraria duas semanas, permitindo a escolha do período ideal da vindima com maior precisão. Além de que retirava logo os bagos secos e os apodrecidos, tudo isto contribuindo para a obtenção de melhor qualidade.

- Assim, um dia destes, não vai ser preciso gente sequer para ver a vinha.
- Gente? Que gente? Hoje já não há gente para estas coisas, senhor. Só mandando vir de fora, da Ucrânia, sei lá. E para ver a vinha estou cá eu.
- Mas se o homem é dispensável aqui e, um dia destes, em todo o lado, quem é que lhe vai beber o
vinho e o do seu vizinho?
- Haverá sempre quem beba do que é bom.
- E os outros? Os que não terão trabalho?
- O trabalho nunca acaba. O que acontece é que há cada vez mais gente que não quer trabalhar.
- Mas também haverá sempre quem queira. É um instinto da condição humana.
- De alguma. Só de alguma.


Tuesday, August 19, 2014

AMBIVALÊNCIAS DA CIÊNCIA

Anteontem anotei aqui a determinação de Jeffrey Bezos de usar drones na distribuição de encomendas feitas à Amazon. Segundo Bezos, 86% dessas encomendas podem ser entregues via drones. Mas a intenção está a suscitar - vd. aqui - reacções muito desfavoráveis e não tem, por enquanto, autorização para avançar com ensaios de campo.

No entanto, segundo previsões do Businesse Insider o  mercado de drones na próxima década atingirá, em valores acumulados, 95 biliões (milhares de milhões) de dólares, dos quais  12% serão utilizados em fins comerciais. Se assim for, Bezos terá certamente garantido a legalidade e o sucesso comercial do seu projecto drone.


As previsões do Business Insider reportam-se a duas utilizações dos drones: fins de defesa e comerciais. A  minha nota de anteontem sobre o tema mereceu um contributo na caixa de comentários que deve ser evidenciado porque refere uma reportagem publicada em Maio passado no Guardian, aqui, sobre a uso de drones  por  biólogos para observar aves protegidas, algumas em risco de extinção. 

Um uso que não parece estar considerado nas previsões do BI, mas que pode ser alargado a outros fins de defesa não militar.



Sunday, August 17, 2014

DRONES CORREIOS

Vai longe o tempo em que os pombos correios levavam mensagens em circunstâncias que mensageiros montados não conseguiriam ultrapassar. Depois, a evolução dos meios de transporte dispensou os equídeos e os pombos correios passaram a ver os seus talentos dedicados a competições columbófilas. 

Recentemente, Jeffrey Bezos, o criador da Amazon deve ter-se lembrado dos pombos correios quando olhou para as artes dos amantes do aeromodelismo, e decidiu ir por aí para continuar a revolucionar a economia da distribuição. Em Dezembro tinha anunciado o projecto de utilização de drones, em Abril, durante a assembleia geral de accionistas da empresa confirmava que o projecto era para ir por diante, há duas semanas confirmou ter solicitado à Federal Aviation Administration autorização para realizar ensaios de campo numa área propriedade da Amazon. Se essa autorização não for concedida, Bezos irá montar a ideia noutro país.

Num artigo publicado na Forbes - Six things you should know about Amazon´s drones - além de respostas a dúvidas comuns que o assunto suscita há um vídeo que ilustra bem a simplicidade deste projecto de Bezos. Funcionará? Se funcionar, será o arranque para uma forma completamente diferente de transportar coisas ... e pessoas ... sabe-se lá!

Se funcionar não será a primeira vez que uma ideia ou um instrumento criados com objectivos bélicos sejam aproveitados para fins pacíficos, ainda que mais vezes tenha acontecido o contrário.

Saturday, August 16, 2014

MUDANDO DE ASSUNTO

Quem é que dá cerca de 10 mil euros por uma estátua em cera de Cristiano Ronaldo, de Angelia Jolie, ou de Putin, ou de Steve Jobs, ou de Leonardo Dicaprio.  Um Leonardo Dicaprio custará aproximadamente o dobro. Muita gente. O kitsch é um dos segmentos de negócio mais relevantes da Alibaba, conglomerado do sr. Jack Ma, o chinês que há cerca de catorze anos transplantou para a sua terra natal a ideia que, naquela altura, já tinha crescido e desenvolvido o comércio electrónico nos EUA. Segundo avaliação feita o ano passado pelo Economist, Alibaba poderá valer 120 mil milhões de dólares, a capitalização em bolsa da Amazon um pouco mais de 150 mil milhões. Alibaba valerá, portanto, cerca de metade de toda a produção feita em Portugal num ano.

Obviamente, Alibaba não vende apenas figuras de cera de celebridades da actualidade. Vende toda  a tralha que seja vendável e transportável a longas distâncias, desde as mais pequenas utilidades e inutilidades domésticas até artefactos em ouro e outros metais preciosos, passando pelos inúmeros items que a revolução electrónica inventa e produz massivamente.

É racional a atitude de um maduro que compra uma estátua destas, ou mais, sabe-se lá até onde poderá ir  a idolatria de alguns, e coabite com elas em casa ou no gabinete de trabalho, como se vivesse num museu Madame Tussaud? É tão racional quanto a racionalidade de outros, entre os quais me incluo, considerarem a idolatria e o kitsch detestáveis. Se eles gostam, por que não?

O que é curioso é o facto de a economia global, e muito em particular as economias de alguns países onde é abundante a mão-de-obra indiferenciada, dependerem em grande medida do consumo intensivo de kitsh em qualquer parte do mundo, mas sobretudo do mundo dito desenvolvido.

Monday, December 30, 2013

ECONOMIA, ECOLOGIA E FOTOGRAFIA

Casualmente, os meus apontamentos de ontem, coincidiram no tema. Quando comentei a fotogaleria do Washington Post desconhecia que no Hishhorn Museum estava a exposição sobre a destruição e a arte depois de 1950. Também casualmente, acabo de receber via e-mail o endereço de uma conferência TED de Sebastião Salgado, um homem que abandonou uma bem sucedida carreira de economista e se tornou um fotógrafo famoso e um ecologista empenhado na defesa da floresta, pulmão da humanidade.

Uma explicação plausível para a aparente obsessão dos mais reputados fotógrafos pelo lado mais dramático do mundo em que vivemos estará evidenciada aqui: Sebastão Salgado : o silencioso drama da fotografia. Pessoalmente, prefiro a todas as outras que Salgado mostra na conferência aquelas duas que retratam o horizonte arrasado próximo do local onde Salgado nasceu e cresceu até aos 15 anos e o mesmo horizonte arborizado por iniciativa do fotógrafo-economista-ecologista Sebastião Salgado.

Porque a exibição das misérias aos olhos do mundo se banalizou  com a parafrenália de media em que se atulha a humanidade, a fotografia das desgraças alheias o que mais geralmente suscita é uma apreciação de admiração estética e só muito remotamente motiva algum empenho para mudar o retrato da situação sempre lamentável, qualquer que ela seja. Pior que a miséria só mesmo a indiferença que a banalização da sua exposição produz.



Wednesday, December 18, 2013

ECONOBLOGOSFERA

P. Krugman comentou ontem aqui a ascendência da blogosfera sobre os anteriores meios de divulgação da evolução da construção, e da desconstrução, do discurso económico. A propósito, cita Onalytica, um blog que se reclama dedicado a "Indicadores Económicos Alternativos", que em Agosto publicou o seu ranking dos 200 blogs "económicos" mais influentes. Como seria de esperar, são em esmagadora maioria de autores norte-americanos.

Também nada surpreendentemente,  "The Conscience of a Liberal" lidera o ranking "Onalytica". Krugman afirma-se, tanto nos meios académicos como junto de todos quantos se interessam razoavelmente pelas questões económicas, como um pensador infatigável e disponível à discussão do que pensa sobre as questões mais polémicas e fracturantes. Pode-se discordar dele, total ou pontualmente, mas não se lhe pode negar a capacidade, o empenho, a frontalidade, a honestidade, com que procura equacionar os rumos das várias rotas do mundo em cada dia que passa e desafiar os outros a demonstrar o contrário. 

A sua presença diária no "The New York Times" seria mais que suficiente para lhe grangear uma notoriedade ímpar entre os seus pares. Krugman, contudo, há muito tempo que se apercebeu que os tempos estão cada vez menos favoráveis à utilização dos media tradicionais como forma de suscitar a discussão sobre questões de interesse universal e susceptíveis de serem apreendidas pela generalidade dos interessados, e a blogosfera assume-se como a plataforma mais conveniente à exposição das ideias de quem tem algumas que valham o tempo de as pensar. 

Uma evidência que muita gente supostamente bem pensante  ainda se recusa, sobranceiramente,  a reconhecer em Portugal. Mas também há quem marque presença regular na econoblosgosfera portuguesa com um sentido de compromisso cívico com a sociedade e sujeição ao contraditório público. Lamentavelmente, o hábito de comentar descamba com muita facilidade para os extremos: ou o inócuo bem visto senhor autor ou a truculência de um desacordo sem fundamento. 

A propósito, destaco a publicação em ibook das crónicas de Pedro Lains editadas no seu blog - A Crise por Dentro, 2008-2013 -. Aplaude-se a iniciativa mas lamenta-se que ela coincida com o termo do blog.
  

Saturday, August 31, 2013

TARAS MODERNAS

Mais de seis anos depois de ter colocado aqui um apontamento sobre o negócio das taras (pelo menos de uma espécie delas) defrontei-me hoje com mais uma prova de proliferação da praga. Não haveria muito mais a acrescentar ao que referi naquela altura se não se desse o lamentável caso de mais este espaço destinado à venda de embalagens de toda a forma e feitio para guardar tudo e mais alguma coisa, que a vaga de consumismo transborda, se instalar onde durante dezenas de anos foi uma livraria enorme, como são todas as "Barnes & Noble", com áreas de leitura, sempre uma delas dedicada aos mais jovens, café (Starbucks), secção de discos, vídeos, etc, proporcionando um ambiente agradável, reconfortante.Além do mais, o B&N é (era) uma alternativa de ocupação e iniciação à leitura dos mais pequenos. É nítida a inspiração da Fnac na concepção da B&N, salvo o negócio de electrónicos que, no caso da B&N se limita ao seu NOOK.

A Barnes & Noble (bendita wikipedia), fundada no último quartel do sec. XIX, é a maior cadeia de livreiros dos EUA  (675 em Abril deste ano) mas vem apresentando nos últimos tempos sintomas evidentes das consequências dos ataques da concorrência de vendas processadas através da internet (com particular destaque para a Amazon) e das plataformas electrónicas de que os iPad e quejandos são, por agora, a frente mais avançada. Tentou reagir oferecendo a leitura electrónica através de uma plataforma própria (NOOK) a um preço reduzido mas de utilização muito limitada. Falhou.

Na área de Washington DC, em pouco tempo a B&N encerrou dois espaços. Em Georgetown, foi tomado pela Nike; aqui perto, pela loja de embalagens e vazilhame em geral. A "grande abertura" está prometida para 21 e 22 de Setembro. Não me admirarei se houver filas intermináveis à procura de descontos de arromba. Mais do que nunca, as taras estão na moda. Num aspecto o cartaz de promoção que reveste a cerca das obras me intriga: "The Container Store - Contain Youself!" .

O que é que os tipos querem dizer com aquilo?

 

Monday, July 08, 2013

RESTAURAÇÃO DE PORTUGAL

Para cumprimento do calendário previsto o PR recebe hoje à tarde o BE, o PCP e o PEV, e amanhã o
CDS, o PS e o PSD. Quarta-feira deverá haver governo presidido pelo senhor Passos Coelho e governado pelo senhor Paulo Portas. Com este enlace, o senhor Passos Coelho terá feito o seu melhor negócio nos últimos dois anos, o senhor Paulo Portas deverá estar convencido que fez o melhor negócio da sua vida. 
 
Passos Coelho continuará a ser nominalmente primeiro-ministro, terá sob a sua direcção os ministros com as pastas menos problemáticas se comparados com os brócolos do molhe comprado por Paulo Portas. Resumindo: a popularidade do senhor Passos Coelho tem tendência para subir do fundo em que bateu, a do senhor Paulo Portas, ou cai desalmadamente, e acaba-se-lhe a carreira, demitindo-se  irrevogavelmente de vez, ou sobe, e passa a perna ao senhor Passos Coelho.
 
De qualquer modo, a convivência será difícil depois das fitas da semana passada e da interferência a que Paulo Portas será obrigado se fizer aquilo a que se candidatou, como interlocutor com a troica, como reformador do Estado, para além da indefinição em suspenso da hierarquia a funcional entre ele e a senhora Maria Luís Albuquerque, espantosamente promovida à pressa a Ministra de Estado e das Finanças.
 
Tão difícil em termos de garantia de sucesso mas menos funcionalmente complicada será a actuação do duo Portas/Pires de Lima na revitalização da economia. O discurso mais procura interna, mais investimento, mais emprego, é aliciante mas só pega de um pé para o outro na bondosa imaginação do senhor António José Seguro. O insistente e quase exclusivo argumento de que a descida do IVA da restauração de 23% para 13% reanima a economia, cria milhares de empregos, e nos promete o princípio de um mundo melhor é uma fantasia que não resiste a uma breve reflexão séria sobre o assunto.
 
Há hoje menos gente a comer em restaurantes? Há sim senhor, mas só nos mais económicos. Quem desistiu de comer em restaurantes ou passou a escolher ementas mais em conta, fá-lo porque o que lhe falta não são 10% para pagar mais IVA mas 77% para pagar a refeição. Aliás, os preços em restaurantes económicos não subiram com o aumento do IVA, desceram em muitos casos com a redução da clientela. Perguntar-me-ão: Mas a taxa de 23% na restauração não é escandalosamente elevada? É. É na restauração como em todos os outros sectores sujeitos à mesma taxa.
 
Anote-se ainda que, apesar da obrigatoriedade da emissão de factura, são raros os restaurantes que, pedida a conta, apresentam um documento que sirva para o efeito.  

Saturday, July 06, 2013

O MISTÉRIO DA ECONOMIA

Se o PR decidir aceitar a proposta de continuação da coligação que Passos Coelho lhe entregou anteontem e não convocar eleições antecipadas, Pires de Lima será, segundo as notícias, o próximo ministro da Economia e Emprego, que inclui ainda as Obras Públicas, Transportes e Comunicações, se for mantida a designação e âmbito do actual ministério.
 
A que se deve a atracção de Pires de Lima, um gestor por certo excepcionalmente bem remunerado, por uma pasta que não promete grandes proezas? Pires de Lima há muito tempo que vem reclamando a entrega da pasta da Economia ao CDS e a um ministro que conheça a realidade empresarial portuguesa, isto é, a ele.  
 
A pasta da Economia tem tido, desde 1974, mudanças de configuração frequentes depois de ter sido denominada desse modo em 1940, e que se manteve até Maio de 1974, quando se funde com o das Finanças dando origem ao Ministério da Coordenação Económica. Por pouco tempo, aliás, porque logo no mês seguinte voltam a separar-se os ministérios da Economia e das Finanças. Durante os vinte anos seguintes o ministério da Economia, nominalmente, desapareceu, e só vem a ser reestabelecido em 1995, a partir dos ministérios do Comércio e Turismo e da Indústria e Energia. Volta a desaparecer nominalmente em 2004 mas reaparece logo em 2005, como Ministério da Economia e da Inovação, e em 2009 passa a designar-se por Ministério da Economia, da Inovação e do Desenvolvimento. Em 2011 passa a Ministério da Economia e Emprego, incorporando as Obras Públicas, Transportes e Comunicações.
 
Tanta mudança de nome e conteúdo é bem sintomática da imponderabilidade de uma pasta que, em economia de mercado, depende de condicionantes que não domina - por exemplo, a realização da Justiça -, e tem um grau de interferência limitado   pelos meios financeiros com que pode intervir no apoio a determinados sectores de actividade económica. Em tempos de crise, ainda que lhe seja atribuída  a gestão dos fundos comunitários retirada ao actual ministro, o ministro da Economia, mesmo se lhe compete a gestão do investimento em obras públicas, pode pouco.
 
Um dia, espantou-me a aventura de um conhecido gestor, que de cervejas sabia bebê-las, na recuperação, para mim impossível, de uma cervejeira entalada. Não a desentalou. Desentalará Pires de Lima, com provas confirmadas numa cervejeira de sucesso, a economia portuguesa? Convicção, pelos vistos, não lhe falta.

Friday, July 05, 2013

ARRUADA

O Bloco de Esquerda montou hoje uma arruada com o objectivo de motivar os lisboetas a comparecerem amanhã em frente do Palácio de Belém e exigirem do PR a convocação legislativas antecipadas. O meio líder João Semedo* passou há momentos pelo televisor à frente dos bloquistas arruadores e, a um entrevistador, afirmou que este Governo, de onde em cada dia se demite um ministro... . Ter-se-á demitido hoje algum?
 
Segundos os noticiários, só amanhã, ao fim do dia, se saberá que acordo Passos Coelho terá apresentado hoje ao PR. E só no princípio da próxima semana, na melhor das hipóteses, o PR informará o país de aceita a continuidade da coligação PSD/CDS recauchutada ou demite o PM, dissolve a AR e convoca eleições antecipadas.
 
De qualquer modo, alguém terá de sair porque não é crível que Portas volte atrás e tudo fique na mesma. Muito provavelmente, pelo menos Álvaro Santos Pereira terá de ceder a cadeira a Portas ou a Pires de Lima.
 
Como é que o CDS vai sobraçar a pasta da Economia, onde a intervenção possível do Governo é, num sistema de economia de mercado, sempre remota, é a expectativa maior acerca desta ambição do CDS que Pires de Lima há muito tempo vem anunciando. Quando, recentemente, se incumbiu de apresentar um programa de reestruturação do Estado, Portas apresentou-se na reunião de Alcobaça sem programa nenhum. Alguns dias depois, demitiu-se.
 
Se agora for incumbido da Economia, Portas (ou Pires de  Lima) incumbe-se de uma área onde os resultados imediatos, nas actuais circunstâncias,  dificilmente irão além do sofrível, o que, considerando-lhe a propensão para saltar do barco quando os balanços enjoam, é muito provável que o acordo de hoje, que será conhecido amanhã, esteja roto mais mês menos mês.
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À pergunta "vai o BE participar numa coligação de esquerda", Semedo respondeu que, neste momento, o mais importante é derrubar este governo.
O costume.

 

Thursday, February 14, 2013

O VIEGAS PASSOU-SE

Aqui.

O senhor Francisco José Pereira de Almeida Viegas passou-se completamente com a ilegalidade que, segundo ele, constitui a penalização dos clientes que não exijam factura dos pagamentos efectuados. Só assim se compreende a forma como se dirigiu ao seu ex-colega no XIX Governo Constitucional, Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio.
 
Considero, e apontei isso mesmo há algum tempo neste bloco de notas, incumbir o cliente da fiscalização uma ideia peregrina e o bónus dado como compensação em sede de IRS uma congeminação que só pode ter saído de uma mentalidade retrocidamente burocrata. Não conheço país algum do mundo que a emissão de factura não seja um acto normal, se fornecedor e cliente não estiverem, tácitamente de facto comprometidos em passar a perna ao fisco para proveito de ambas as partes. A redução das práticas de economia paralela passa, necessariamente, pela penalização pesada de quem, devendo emitir factura não o faz. Colocar o cliente na posição de fiscal detiora a relação, que pode ser frequente e antiga, e deve ser amigável, entre cliente e fornecedor. A factura é obrigatória, ponto final, se o fornecedor desobedece, deverá ser penalizado de forma exemplar para ele e para os outros.
 
O que não se compreende, a menos que o senhor Viegas se retrate e invoque loucura momentânea, é que, tendo ele privado com o senhor Paulo Núncio no Governo do senhor Passos Coelho, sendo um homem de cultura, embora seja difícil dizer-se o que isso seja, e sabendo, além do mais, o senhor Viegas que os fiscais são pobres funcionários (expressão dele) às ordens do Governo, não se compreende porque é que, se as circunstâncias se conjugarem, provoque o fiscal.
 
E não se compreende porque o senhor Viegas poderia, de modo realmente frontal, se a sua veia lhe deu ontem para a bronca, escrever a sua mensagem do seguinte modo:
 
Caro Pedro Passos Coelho,
Caro Vitor Gaspar,
Caro Paulo Núncio,
 
queria apenas avisar-vos que, se por acaso, algum senhor da Autoridade Tributária e Aduaneira tentar «fiscalizar-me» à saída de uma loja, um café, um restaurante ou um bordel (quando forem legalizados) com o simpático objectivo de ver se eu pedi factura das despesas realizadas, lhe responderei que, com pena minha pela evidente má criação, terei de lhe pedir para que vos informe que  tomem no cu, ou, em alternativa, que peça a minha detenção por desobediência. Ele, pobre funcionário, não tem culpa nenhuma; mas se a Autoridade Tributária e Aduaneira quiser cruzar informações sobre a vida dos cidadãos, primeiro que verifique se a C. N. de Proteção de Dados já deu o aval, depois que pague pela informação a quem quiser dá-la.
 
Assim, seria de homem, ainda que momentâneamente transtornado. Provocando o eventual fiscal, não é sequer de homem, e muito menos de um homem de cultura.
 

Saturday, February 09, 2013

LINCOLN





 
Oscar Index Lincoln

Lincoln de Spielberg está nomeado para doze óscares da academia de Hollywood, pode até ser considerado o melhor filme de 2012, mas está longe de ser uma das melhores obras do realizador da "A Lista de Schindler" de "Resgate do Soldado Ryan", "ET", entre outros. Centrado num período relativamente curto, que antecede a aprovação pelo Congresso da sua proposta de Emenda (13ª) à Constituição, que aboliria a escravatura nos EUA, o script  restringe-se essencialmente   às diligências e estratagemas, até com algum recurso a negócios corruptos, para conseguir os votos necessários, antes que a guerra terminasse, para que a escravatura fosse legalmente abolida.

 
Com algumas imprecisões históricas - vd. aqui -, Lincoln, no entanto, merece ser visto.
Registo uma cena, que não sendo excepcional do ponto de vista artístico, é emblemática do ponto de vista histórico: aquela em que, já derrotados os confederados do sul, tentam negociar com Lincoln a possibilidade de, no Congresso, e qundo nele viessem a ser representados, poderem anular a 13ª. Emenda e invalidar a abolição nos estados que votassem nesse sentido. Obviamente, Lincoln rejeitou, até porque isso representaria voltar de facto à situação que tinha espoletado a Guerra Civil e dizimado mais de 600 mil homens.
 .
O fim da escravatura, segundo os confederados derrotados, teria consequências dramaticamente negativas sobre a economia dos estados do sul. Um argumento que ainda hoje subsiste no sul,  como justificação moral não acolhida pela história. Não pode, no entanto, ignorar-se a importância, naquela época, do trabalho escravo na economia do sul sustentada nas culturas do algodão, entre outras. 
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É curioso, contudo, que segundo Stefan Zweig, tenha sido a abolição muito tardia da escravatura no Brasil que determinou o adiamento da mecanização e, desse modo, comprometeu o desenvolvimento económico brasileiro. Se Zweig tem razão, e tudo leva a crer que sim, a abolição da escravatura nos EUA não só não comprometeu o crescimento económico do sul como provocou a sua passagem para a era industrial.

Friday, January 18, 2013

E PLURIBUS UNUM

"Precisamos de economia, com economia os problemas do Estado Social não assumem a dimensão que alguns lhe querem atribuir." - aqui

Quem é que pode dizer o contrário?
Penso que ninguém. Há não muito tempo atrás reconhecia-se, geralmente, que deveriam ser adoptadas medidas que privilegiassem a produção de bens e serviços transaccionáveis contrariando a influência dos factores que tinham reforçado o encaminhamento dos recursos materiais e humanos para as actividades protegidas das leis do mercado.

Que foi feito desde então de verdadeiramente decisivo para alterar a tendência perversa?
Para onde se dirigiram as poupanças e o crédito, para onde se encaminhou o investimento, para onde se dirigiu, por exemplo, o crédito da Caixa Geral de Depósitos, o banco do Estado?
Ouvi ontem o presidente da comissão executiva declarar que a Caixa registará prejuízos em 2012 e 2013!, e não há responsáveis?, e que a partir de agora passarão a apoiar mais as PME! Vêm dizendo o mesmo há largos meses. A intervenção da Caixa no financiamento da economia tem sido um logro de lesa pátria.

E a que preço vão conceder esse crédito? As empresas não podem financiar as suas operações apenas com capitais alheios mas é impensável que o possam fazer sempre apenas com capitais próprios. E o (elevado) preço que pagam pelo crédito é mais um factor que lhes retira competitividade no mercado.

Que medidas de apoio e bonificação de taxas estão a ser concedidas pelos bancos às actividades que têm de competir nos mercados externos?

O crédito bancário continua em grande parte envolvido no financiamento do Estado. A recapitalização dos bancos é o exemplo mais flagrante disso. A troica empresta ao Estado e manda o Estado emprestar aos bancos e aos bancos emprestar ao Estado. Quem sabe quanto da dívida pública está nos activos dos bancos portugueses?

Não há recuperação económica possível se as contas do Estado sugam a parte maior das poupanças e do crédito disponível. Não haverá reequilíbrio das contas públicas possível se a economia não despertar. O reequilíbrio das contas, reduzindo drasticamente o défice, não inverterá só por si continuação do crescimento da dívida relativamente ao PIB se a economia continuar em recessão por falta de crescimento potencial. O objectivo nacional, que parece ser comungado pelo governo e pelo líder da oposição, de voltar aos mercados ainda este ano será uma miragem de inverno se não acontecer nada de novo antes da troica retirar o chapéu que nos tem abrigado.

Para garantir que não haverá recaída depois da saída da troica é fundamental negociar as condições pós-troica antes da troica sair. Se não, o objectivo nacional – meramente instrumental porque não é um objectivo em si mesmo – não chegará a levantar-se. Mas para que isso aconteça é forçoso que o Governo seja capaz de congregar um consenso nacional que intervenha internamente de modo mobilizador e determinado junto da União Europeia, sem exibição de diferenças no que é essencial entre as forças partidárias que agora se digladiam.

Em resumo, é condição sine qua non que o senhor primeiro-ministro seja capaz de fazer aquilo em que até agora tem falhado completamente: negociar com o PS e os parceiros sociais um entendimento sobre as posições a tomar nas negociações com a troica a partir da próxima reunião de avaliação, abandonando de vez a atitude de auto suficiência, idêntica à do seu antecessor, completamente despropositada numa situação de crise gravíssima. Uma negociação que não pode passar, evidentemente, nem pela discussão na praça pública nem pela exibição nos directos (televisivos) ou diferidos das tiradas demagógicas no parlamento. 



Saturday, December 01, 2012

AS PARTIDAS DOS SUBMARINOS

Só anteontem, quando de relance passei pelo canal televisivo do parlamento, estava a usar da palavra o deputado António Filipe (PCP), soube que o Governo aceitou como contrapartidas estipuladas no contrato de fornecimento dos submarinos um investimento na recuperação de uma unidade hoteleira no Algarve (cf aqui). Baião Horta, agora na bancada do PS, apoiou o discurso do deputado comunista e adiantou mais detalhes de um negócio que começou obscuro e persiste na maior obscuridade. A deputada Carina de Oliveira (PSD), não sei se indigitada se voluntariada, debitou uma defesa fora do alvo invocando que o assunto se encontra entregue aos tribunais, o deputado Helder Amaral (CDS) tentou divertir o problema chamando, a despropósito, o requentado discurso de quem é que quis comprar quatro submarinos e quem é que apenas comprou dois. Percebeu-se que tanto um como outro não tinham saída senão sair para o lado. O ministro da Economia vai ser chamado à AR para esclarecimentos (cf aqui).
 
Novas contrapartidas dos submarinos são muito más diz especialista em tribunal,  é o título da notícia no Público de mais uma cena do próximo capítulo de um processo que, como tantos outros!,   vergonhosamente, se a vergonha ainda existe, se arrasta pelos meandros de uma justiça incompetente, e, também por isso, indolente e conivente.  
 
Quem é o especialista chamado a depor em tribunal? Miguel Nuno Horta e Costa, consultor da Escom até 2005 (Grupo Espírito Santo), empresa que a Ferrostal, do consórcio fornecedor, contratou para construir o pacote de contrapartidas dos submarinos. Confirmou em tribunal este Horta e Costa - vd aqui  e aqui - que havia contrapartidas que não eram verdadeiras e que prejudicaram o Estado português.

O depoimento deste Horta e Costa (não confundir este com este, também ligado ao BES) não acrescenta muito aquilo que já se sabia e que até a Justiça alemã já condenou: houve simulações, houve burlas, houve corrupção, houve corruptos, houve corruptores. Se, conhecido e judicialmente reconhecido na Alemanha, houve tudo isto o que é pode ter levado o ministro da Economia a assinar  um, no mínimo estranho, acordo de regularização de contas antes de os tribunais portugueses se terem pronunciado?

Qualquer que seja a explicação do ministro, ela dificilmente corresponderá à escondida razão que tem feito, ciclicamente, emergir e submergir o processo das contrapartidas dos submarinos enquanto não se zangarem a sério as comadres. O que é lamentável é que o ministro Álvaro Santos Pereira tenha aceitado o dirty job de lavar o rabo ao porco.

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Correl.- Contrapartidas ao fundo

Monday, October 01, 2012

MUDAR DE MOSCAS

A partir do momento em que o indiscutível professor Marcelo deu o tiro de partida, a remodelação do Governo passou a prato principal da ementa política e fontes próximas do primeiro-ministro, segundo os jornais, já garantiram que haverá novidades antes da aprovação do OE para 2013. Parecem óbvias as saídas de Relvas e Santos Pereira. Também parece improvável que Gaspar dê lugar a outro. Quanto aos restantes, não é aqui que se vendem palpites.   
 
O ministro da Economia começou cedo a ter que esquivar-se ao mata-moscas. O maior erro do professor Álvaro foi ter-se encadeado com os raios enganadores do poder político e não ter avaliado bem o atalho em que se meteu. Se ele se tivesse mantido como professor, acumulando com a facturação de uns palpites de vez em quando, não facturaria o que factura o professor Marcelo mas manteria a aura que ainda paira sobre os académicos se não se aventuram em caminhos apertados onde lhe descobrem a calva.  
 
Disse-se que o ministro Santos Pereira era vítima da dimensão exagerada do multi ministério. Não me parece. Para as obras públicas não há fundos nem crédito. O que havia a fazer, mas, mais do que do ministro, depende da determinação do primeiro-ministro, era renegociar as parcerias público privadas. Recentemente, soube-se (estas coisas sabem-se sempre, e acabam sempre em águas de bacalhau) que foram efactuadas buscas aos domicílios dos dois anteriores ministros das Obras Públicas e do secretário de Estado da mesma pasta. O senhor PGR já adiantou, como de costume, que não há arguidos, só há diligências. Se houver pontas de ilegalidades por onde pegarem nos famigerados contratos das PPP talvez haja aqui trabalho para o próximo ministro se ele dispensar a assistência do professor Borges. Se não, sem obras públicas, não há razão para um ministério das mesmas.
 
Mas poderá um outro ministro da Economia imprimir alguma reanimação à doente? Talvez, mas não muito. O crescimento económico sustentado depende pouco do governo numa economia de mercado. Mas se o titular da pasta tiver peso político suficiente para fazer prevalecer algumas medidas dinamizadoras da concorrência  e promotoras da economia real, por oposição à economia especulativa, pode dar o contributo político necessário para a reforma de um tecido económico feito em grande medida de peças sem dimensão competitiva. Se não, pouco adiantará a mudança porque os interesses instalados são suficientemente fortes para não permitirem a abertura de brechas no status quo.

Santos Pereira propôs ou deu a cara pela proposta do aumento da produção com o aumento do horário de trabalho e a redução do número de feriados obrigatórios. Foi esmagado e ridicularizado por empregados e empregadores. Defendeu, inicialmente, a redução da TSU mas foi Gaspar quem inventou, ou passou por ter inventado, a inteligente proposta (segundo Borges) de, em simultâneo, a reduzir para os empregadores e aumentar para os empregados.

Há dias, um ex-ministro da Economia afirmava que a economia portuguesa é mais chinesa do que muita gente julga. E é, mas só até certo ponto, porque, para lém dele, é lisonjeira para a economia portuguesa.  E sendo, como é que pode - insisto nisto - uma economia ainda em grande parte dependente de actividades de baixa tecnologia competir no mercado globalizado de hoje sem redução de salários ou aumento do horário de trabalho?

Referi aqui há dias, alguns exemplos de confrontação comercial entre alguns poucos produtos made in Portugal e muitos made in China, ou made in PRC, que é a mesma coisa disfarçada. Resta acrescentar que, naqueles casos, a parte de leão contida nos preços de venda cobrada pelos criativos-distribuidores norte-americanos pode um dia destes ser apanhada pelos chineses, uma vez que não lhes faltam dólares. E, os portugueses, o que podem fazer os portugueses, pequenos e com uma crise às costas, cada vez mais encostados a subsídios de desemprego?

Se o ministro da Economia não souber, muitos empresários, que não são ignorantes nenhuns, também não.
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Correl.- Custos de produção industrial sobem em Portugal acima da zona euro 

Friday, August 31, 2012

OS MAIS PODEROSOS

Cumprindo os rituais da silly season, o J Negócios voltou a realizar este ano o inquérito de avaliação dos mais poderosos na economia portuguesa. Em tempos de crise, se não servir para nada mais, serve para para promover a venda de mais uns quantos exemplares do jornal quando os seus habituais leitores estão de férias.

O ano passado ocuparam os primeiros sete lugares, Merkel, Passos Coelho, Ricardo Salgado, Miguel Relvas, Vitor Gaspar, Eduardo dos Santos e Américo Amorim. Destes, soube-se hoje, Eduardo dos Santos passou para a sétima posição, provavelmente por troca com Américo Amorim, que deve ser este ano o sexto. Dos outros cinco, nenhum consta da lista nas posições seguintes, sendo muito provável que a quase totalidade permaneça este ano nos lugares de cima. A dúvida está em Miguel Relvas. Mantem-se no pelotão da frente, apesar dos trambolhões que tem dado ou sai do primeiro pelotão, saindo da lista? E se sair, quem entra?

O ano passado o ministro da economia ficou-se pelo 37º lugar e este ano não apareceu ainda? Sai da lista ou consegue uma recuperação espectacular? Parece-me mais provável a primeira hipótese.

Nada disto é relevante para além da falta de credibilidade que Álvaro Santos Pereira continua a merecer junto da opinião pública. Há dias, Daniel Bessa considerava, na sua coluna habitual no Expresso/Economia, o lugar de ministro da Economia o lugar do morto. O epíteto/metáfora tanto se aplica com propriedade a este como aos anteriores ministros da economia, incluindo Bessa. Porque o ministro da economia não conduz a economia, senta-se ao lado do condutor, a sua posição é ainda mais ameaçada quando o ministro não tem peso político e o tempo é de tempestade.

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Act. (3/9) - Miguel Relvas é o 6º. mais poderoso.
Act. (4/9) - Américo Amorim é o 5º.
Act. (5/9) - Ricardo Salgado é o 4º.
Act. (6/9) - Passos Coelho é o 3º.
Act. (7/9) - Vítor Gaspar é 2º.
Act. (10/9) - Merkel continua a ser a mais poderosa

Friday, August 17, 2012

O DISCURSO DO OUTRO

É impressionante o número de professores portugueses de economia que ensinam no estrangeiro, sobretudo nos EUA. Um deles, professor em Princeton, prognosticou logo após o começo da crise nos EUA que ela seria extinta a curto prazo. Outro, que foi  primeiro ministro da Economia do anterior Governo, e que há dias publicou um artigo no Expresso/Economia sobre a sua experiência pedagógica na China, declarou o fim da crise em Portugal há seis anos, para dois anos depois garantir que tinha acabado o mundo da prosperidade. Ontem, o actual responsável pela pasta da Economia e Emprego, professor em Vancouver, informava o seu entrevistador num canal televisivo que começa sempre por alertar os seus alunos que "previsões macroeconómicas são sempre previsões macroeconómicas, isto é, falíveis".

Não foi, portanto, original o anúncio feito há dias no Pontal pelo actual primeiro ministro de que 2013 será o ano de estabilização da economia e de preparação da reparação económica para Portugal e não é estranho que o seu ministro da Economia se tenha  posteriormente, aparentemente, distanciado do optimismo do chefe do Governo. Nem original nem infalível, portanto, porque, sendo as previsões macroeconómicas intrinsecamente falíveis, como ressalvou o ministro, a perspectiva optimista é, em princípio, tão provável quanto a pessimista e tem a vantagem de aumentar a esperança dos geralmente distraídos.

À falta de originalidade, neste caso, do primeiro  ministro corresponderam as nada originais críticas do lado de quem, na ocasião, não é governo. Mas todos sabem que, para além das nossos específicos handicaps, existe uma envolvente geralmente deprimida que, inevitavelmente, condiciona a evolução do comportamento da economia portuguesa no próximo futuro.

A propósito, trancrevo um gráfico/barómetro publicado anteontem no Economist das expectativas de evolução global dos negócios resultante de um inquérito conjunto do Economist/FT junto de 1500 executivos de topo.    



Conclusão: Continuam geralmente sombrias as perspectivas dos homens de negócios em todo o mundo. Entre Abril e Julho deste ano caiu 5 pontos percentuais a diferença entre optimistas e pessimistas. Globalmente, 42% dos executivos reconhecem agora que a situação vai agravar-se, a maioria está convencida que os maiores problemas se situam na Europa, mais de 60% acredita que as condições económicas na zona euro se degradarão nos próximos seis meses. É mais optimista o outlook para os EUA mas as eleições de Novembro podem mudar estas perspectivas. A reeleição de Obama é geralmente considerada favorável para os negócios, ... excepto nos EUA, onde os homens de negócios preferem Romney (39,3%) a Obama (31,9%).
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Passos Coelho não leu o barómetro. Mas se tivesse lido, não teria alterado o discurso. Há sempre um discurso apropriado a cada ocasião independentemente do discurso dos outros.  

Monday, August 13, 2012

OLIMPICOS, MAS POUCO

mais fotos aqui

Um dos maiores circos do mundo, que de quatro em quatro anos monta instalações e pode ser visto em toda a parte do mundo, terminou ontem, e como é costume, com mais pompa e luminância que nunca. Para lá das competições entre atletas e, mais notoriamente entre países, há uma competição em grandeza kitsch entre os países organizadores que se exibe na abertura e encerramento do espantoso evento que se traduz em sucessivos recordes, segundo os observadores geralmente bem informados. O Brasil, próximo anfitrião, já está em pulgas para montar este Carnaval diferente e promete gastar o que pode e o que não pode para conquistar também esta medalha única.

Não me impressiona a generalidade das modalidades olimpicas mas ninguém que esteja acordado pode ignorar o fenómeno que põe tanta gente horas a fio a olhar absorta os ecrans de televisão. Dei uma olhadela a uma ou outra modalidade, continuo a não entender por que desígnio há quem entegue uma parte da sua vida, por exemplo, à tentativa de redução de um milésimo de segundo numa corrida de cem metros; assim como não entendo os critérios que afastam da consagração olimpica os artistas do futebol mais aplaudidos e imperialmente pagos. Dir-me-ão que se pretende preservar a imagem do desporto amador nos jogos olimpicos mas toda a gente sabe que o argumento é treta.

Numa olhada ao quadro das medalhas olimpicas, ressalta, para além da comparação do incomparável -países com a dimensão económica dos EUA ou da China (os dois primeiros do quadro de honra) com outros centenas ou até milhares de vezes mais pequenos -, a continuidade da supremacia norte-americana perseguida pelo sucesso desportivo da China, replicando o sucesso à vista na ultrapassagem dos americanos na modalidade força económica.

Tanto aparente sucesso de um regime ditatorial acabará, mais tarde ou mais cedo, se não abrir falência entretanto, por questionar as razões do insucesso aparente da democracia.
Até onde dois rankings de grandeza, económica e desportiva, liderados pela China podem suscitar o confronto dialético aberto entre ditadura e democracia?
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Se ao menos, entretanto, a UE fosse uma entidade politicamente integrada e se apresentasse como tal no Rio... 

Sunday, May 13, 2012

PORTUGAL NÃO É A SUÍÇA

Tínhamos pedido ao TomTom para nos indicar o caminho de Hombi, nos arredores de Zurique, até Reichenau, no lago Constança, evitando autoestradas e vias rápidas. A atravessar as paisagens do planalto entre montanhas de verde primaveril, deparamos em todo o lado  com uma actividade de formiga que ou aproveita o sol para com uma engenhoca atrelada aos tractores  revolver a erva já cortada que será enrolada ou enfardada antes que volte a chover, ou com a charrua atrelada lavra a terra já disponível para as sementeiras de gramíneas ou plantações hortícolas. Nas pastagens, que se intercalam com os terrenos cultivados, permanece imutável o cliché suíço: os bovinos a dar ao dente dando ao badalo, a preguiçar e ruminar, as casas agrícolas com a estrumeira à porta a exalar o cheiro a fartura, as estufas, os pomares, os vinhedos nas encostas, o combóio a fugir ao longe.

Atravessa-se a Suiça de qualquer ponta a outra e é sempre o mesmo impressionante pulsar de actividade entremeando as cidades e os serviços com a indústria e a agricultura, e pescas à beira dos lagos. Está redondamente enganado, já o anotei neste bloco de notas, quem pensa que a economia suíça se sustenta fundamentalmente do sector financeiro. O peso da indústria no PIB suíço é um dos mais elevados do mundo, os suíços são praticamente autosufientes em bens alimentares.

Reichenau é uma pequena ilha já no lado alemão do lago Constança, está classificada como Património da Humanidade desde 2000 pela UNESCO. Foi ali que no começo do sec VIII foi edificado um mosteiro beneditino e, a partir de lá, como de um alfobre,  transplantaram-se hábitos de trabalho intelectual e braçal que atravessaram os séculos e de que, ainda hoje, há testemunhos, eloquentes de um  passado cultural que iluminou na Idade Média, nos seus mosteiros, e na continuidade da azáfama nos campos onde se alinham as hortas, a céu aberto ou em estufas.

A ver esta paisagem, esta gente, estes campos cultivados, recordo-me sempre da minha aldeia  há umas dezenas de anos a fervilhar de vida vegetal e animal por esta altura do ano. Hoje é vila, um dormitório sitiado por silvados e pousios.

Tinha de ser assim?


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Friday, May 04, 2012

O PINGO DE SOLDA

Ouço esta manhã na Antena 1 que a ASAE está já a averiguar se houve ou não uma situação de dumping  na  campanha do 1º. de Maio no Pingo Doce. Era adiantado que, pelo menos em três casos (três produtos?) tinha sido constatado existirem fundamentos para a acusação de ilegalidade. Ouvidos os responsáveis do Pingo Doce, terão confirmado que não praticaram dumping, reconhecendo, deste modo, que as suas margens de comercialização são superiores ao desconto geral de 50% concedido durante um dia.

Três horas depois, volto a ouvir na mesma antena a parte final da informação de alguém (não percebi quem) do Observatório dos Mercados Agrícolas e das Indústrias Agro-Alimentares acerca das margens recolhidas nos hipermercados: 70% na alface frisada, 60% nas cenouras, 45% na pêra rocha, ... Não garanto a exactidão dos valores mas garanto que eram desta ordem de grandeza. A informação prestada referia-se a sondagens feitas durante o mês de Março.

Mais duas horas depois, o ministro da Economia à pergunta sobre o que pensava sobre o assunto respondia que esperava pelos resultados do relatório da ASAE, mas acabou por dizer que tal tipo de campanhas eram comuns em outros países.

Cerca das quatro horas da tarde estou bloqueado no meio de um engarrafamento de trânsito provocado por uma manifestação de agricultores (umas centenas, informava a rádio) reclamando mais apoios do governo e legislação que lhes permita maior capacidade negocial com os compradores dos hipermercados.

Da Autoridade para a Concorrência não se ouviram notícias.

Em conclusão: Se não houve dumping, e é o Pingo Doce que garante que não houve, só são possíveis margens arrecadadas daquele tamanho se há acordos tácitos entre os grupos concorrentes. Porquê perseguir a prática de dumping (aliás penalizada de modo simbólico - até 30 mil euros) se o Pingo Doce implicitamente confessa que a concorrência não funciona no sector? Afinal para que pagamos aos observadores dos mercados agrícolas e das indústrias agro-alimentares se eles observam e se calam? E a Autoridade para a Concorrência, que dorme. E o ministro, que diz que não diz mas diz o que não devia dizer. E o ministério da Agricultura que continua a não saber ir além dos mistérios dos subsídios.