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Friday, December 14, 2012

PARA ONDE VAI O BANIF?

Há pouco mais de um ano afirmei aqui que o maior buraco (ia) começar dentro de pouco tempo, a propósito da recapitalização dos bancos portugueses, que, no caso do BCP, dificilmente deixará de corresponder a uma nacionalização com todas as surpresas para os contribuintes a que este tipo de intervenção em nome do Estado é propício. Entretanto, a recapitalização, a caminho da nacionalização, já se concretizou, assim como da Caixa e do BPI.  No caso da Caixa, até porque uma parte foi encaminhada directamente para aumento de capital, teremos de levar os fundos entregues em nome do Estado, a fundos perdidos. No caso do BPI, a probabilidade de reembolso parece elevada, tendo, aliás, já sido iniciado o reembolso nos termos do contrato. No caso do BCP, a incógnita é enorme mas, considerando a evolução dos resultados apresentados entretanto, a hipótese da participção do Estado se converter definitivamente em capital, tornando os contribuintes , de facto, responsáveis pelas perdas que vierem a observar-se, parece-me de concretização muito provável.  De qualquer modo, os capitais das recapitalizações que não vierem a ser reembolsados aumentarão a dívida líquida soberana, comprometendo-se, também deste modo a evolução decrescente apresentada pelo ministro das finanças durante a conferência de apresentação do OE.
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Hoje, o protagonista é o Banif. E porquê? Porque o volume de transacções das suas acções foi cerca de 39 vezes superior à média dos últimos 12 meses e os preços chegaram a subir 36%. E porquê? Porque uma decisão judicial abre as portas à recapitalização de mil milhões de euros. Conseguirá o Banif, num contexto de crise de que não se vê ainda a curva de inflexão, devolver ao Estado os mil milhões que levaram os accionistas a colocar o Banif no top das notícias financeiras domésticas? Não creio. Entre a hipótese do reembolso e a nacionalização de facto, suponho muito mais provável esta que aquela. 

Curioso é que estas prováveis nacionalizações, com todos os efeitos que podem determinar na carga da dívida, isto é, em sobrecarga de impostos que os portugueses terão de pagar, pouca ou nenhuma atenção tenha merecido dos habituais comentadores da praça. Todas as atenções estão direccionadas para as privatizações a curto prazo: da TAP, da RTP e da ANA. Questões importantes, sem dúvida. Mas menos susceptíveis de bulirem com os bolsos dos contribuintes.

Voltando ao Banif: Estaremos, neste caso, perante uma situação de eventual risco sistémico, o tal com que nos amedrontam para nos extorquir contribuições? Penso que não. Se os actuais accionistas não conseguem, apesar da euforia de hoje, dispensar a participação do Estado, porque não pode falir o Banif num país em que todos os dias o número de declarações de insolvências e falências continua a ser crescente? Por que razão teremos todos de pagar os erros ou os riscos mal calculados de alguns?

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Correl.- Portugal vai ser excepção numa Europa com maioria de aeroportos públicos


Monday, January 16, 2012

AEROPORTO

A globalização é irreversível? Penso que sim.
Porque se for reversível será por um motivo que poderá conduzir a humanidade a um conflito bélico global, de consequências apocalípticas. Mas a globalização, se continuar desenfreada, não pode senão ser o motivo maior da sua reversibilidade.

A competição económica entre as nações, hiperactivada pela globalização, é sobretudo uma competição entre trabalhadores, da qual não resulta necessariamente um aumento de produtividade global mas o nivelamento por baixo das condições de trabalho, da qualidade dos produtos e dos serviços, além da crescente ameaça às condições de toda a vida, animal ou vegetal no planeta.     

Houve tempo em que os transportes aéreos primavam por um serviço aos seus clientes, mesmo daqueles que não se sentam em primeira classe ou executiva,  que não encontrava paralelo nos outros meios de transporte em geral. E não me refiro às refeições a bordo, porque nunca valorizei muito esse serviço, que, por melhor que fosse, era pior do que aquele a que estava habituado mesmo em restaurantes modestos,  mas sobretudo à atenção que lhes mereciam os passageiros quer no embarque quer à saída das aeronaves. 

Hoje, a competição dispensou pessoal, as informações só quase podem ser obtidas por meios electrónicos, que nem sempre temos à mão, a despersonalização é quase total, os passageiros são números e mais nada.

Ontem, chegámos ao aeroporto de Dulles, Washington DC, com duas horas e meia de antecedência, não fosse algum percalço exigir mais tempo, já com o check in feito on-line. Por razões técnicas, que acabaram por se mostrar insolúveis, aguardámos quatro horas a bordo, aguardando os resultados de várias tentativas para resolver o imbróglio. Eram quase duas horas da manhã quando saímos do avião da British Airways, cá fora a confusão era total. Acabaram por nos enviar para um hotel nas proximidades, facultando o transporte numa carrinha com 12 lugares sentados. Outros tantos viajaram de pé, enlatados, contra todas as regras. Outros ficaram a aguardar ao frio cortante a chegada de outro mini bus,  dentro de vinte minutos, prometiam, não sei se cumpriam.
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Resumindo, e concluindo: só às três da manhã tínhamos feito o check-in no hotel. Atrás de nós ficou uma fila de umas vinte pessoas. Já a caminho do elevador vimos, quase no fim da fila, uma senhora com uma criança de poucos meses de idade o colo. Ninguém lhe cedeu a vez, nenhum empregado veio ter com ela. Devem ter chegado ao quarto às quatro da manhã. Demos por isso pelo contínuo rodar de malas no corredor.

Quanto a pequeno-almoço, almoço, cada qual que pague o seu.
Mas, por isso, não teria despejado aqui esta nota hoje.

Saturday, May 08, 2010

TENTAÇÕES E A TIA MERKEL

Segundo hoje se soube os líderes da zona euro decidiram criar mecanismos permanentes de socorro aos países em dificuldades. Os pormenores ainda são desconhecidos mas presume-se que sejam conhecidos antes da abertura dos mercados após o fim-de-semana.
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Terá Angela Merkel abdicado dos critérios estabelecidos em Maastricht? Não acredito.
A julgar pelo conhecemos das declarações recentes dos dirigente alemães, os mecanismos de socorro de que fala a notícia não vão descurar o cumprimento de objectivos de rigor e o escrutínio apertado dos mesmos. De modo a que aqueles que venham a pedir socorro saibam perfeitamente quanto lhe custarão as bóias.
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Não creio, portanto, que a saída consentida por Merkel seja a da moneterização fiscal do défice. A inflação será sempre a última zurrapa que os alemães aceitarão tragar, não sendo provável o prognóstico de Nouriel Roubini citado na entrevista que transcrevi anteriormente:
As a result, “there will be temptation to keep monetising the fiscal deficit”, which will ultimately produce inflation."
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Tentação haverá mas não será germânica. E sem o consentimento da Alemanha, as tentações não passarão disso.
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Ao mesmo tempo que escrevo este apontamento ouço na Sic notícias que o líder do PCP acusa o governo de estar a ceder perante os interesses dos grandes grupos ao suspender o arranque da construção do novo aeroporto. Confuso? Geralmente os grandes grupos adoram as obras públicas. Mas o líder do PCP também não disse a que grandes grupos se referia.

Thursday, May 06, 2010

NO FIO DA NAVALHA

O Parlamento grego aprovou ontem o compromisso de cumprimento das exigências do contrato de empréstimo que pretende evitar a bancarrota da Grécia, eventualmente o colapso do euro, eventualmente a desagregação da União Europeia, eventualmente a destruição da democracia em alguns países europeus. Há manifesto exagero nesta sequência aparentemente absurda? Talvez.
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E, no entanto, se há coisa que não temos, ninguém tem, por garantida, é a democracia.
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Ao mesmo tempo que os parlamentares gregos se reuniam para aprovar os termos do contrato de empréstimo, uma multidão sentava-se em sinal de protesto em frente do edifício.
Se o governo grego se vier a mostrar incapaz de conter as manifestações sociais contra o cumprimento das medidas que o contrato impõe e não puder honrar os compromissos assumidos o que é que acontece?
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Entretanto, alegremente, o governo português adjudica amanhã o troço Poceirão-Caia do TGV quando até Constâncio defende medidas mais drásticas para 2010 e "acharia normal" adiar TGV e novo aeroporto. Quando um dia destes o crescimento da dívida pública vier a impor restrições ainda maiores, teremos as manifestações lideradas por aqueles, PS, BE e PCP, que agora defendem com a maior excitação os grandes projectos.
A caminho da Grécia.

Saturday, November 21, 2009

TÓ TÓ MILHÕES

Acordo na avaliação custa pelo menos 20 milhões
Conclusão do actual ciclo de avaliação vai permitir a subida de escalão, já em Janeiro, a pelo menos 10 mil docentes. E se cair a categoria de 'titular' deixam de haver barreiras ao acesso aos salários...
Os degraus da carreira docente
PS diz que prazo de 30 dias para novo modelo é "indicativo"
Sindicatos divididos sobre votação no Parlamento
'Buraco' nos impostos é de 1,6 mil milhões
O défice das contas do Estado nos primeiros nove meses do ano dava já para pagar dois aeroportos como Alcochete. Crise económica "roubou" aos cofres fiscais mais de 4,3 mil milhões de euros. Aumento do...
Os gastos do Estado com a economia
Privatizações obrigam a OE rectificativo

Thursday, October 29, 2009

UM AEROPORTO A VOAR

Soube-se ontem que a Caixa Geral de Depósitos já tem um envolvimento no BPN da ordem dos três e meio mil milhões de euros, qualquer coisa que daria para pagar o novo aeroporto e ainda sobrar dinheiro.
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Ouvido o presidente da Caixa acerca da enormidade, o (i) responsável respondeu que o apoio da CGD ao BPN nada tinha de anormal, são operações frequentes entre bancos. Perguntado se a CGD não corria riscos, tornou o (i) responsável que não senhor, não havia riscos de qualquer espécie porque os empréstimos tinham o aval do Estado*. Assim, também eu, diria o amigo Banana.
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Algum tempo depois, num destes programas frente-a-frente, um dos participantes, deputada por um partido da oposição, escolheu como assunto inicial o buraco sem fundo em que se tornou o BPN. Ripostou o participante, deputado do Governo, que aquele não era assunto para ser discutido na televisão, o lugar próprio para interpelar o Governo era a AR, onde ambos têm assento. Quando, ninguém sabe. O que se sabe é que o BPN é um sorvedouro que já deveria ter sido estancado há muito, custasse o que custasse, porque sempre custaria menos do que esta sangria sem fim.
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Um dia, quando o buraco negro se alargar ao ponto de atingir dimensões insustentáveis, perceber-se-á que os contribuintes portugueses têm às costas uma carga insuportável que a CGD assumiu em seu nome a mando do Governo.
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Friday, June 26, 2009

DEBATES

novo grupo
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O debate sobre investimento público em Portugal e os caminhos para sair da crise económica não dividem apenas a classe política - entre os economistas está a ganhar forma uma batalha de ideias sobre os milhões a gastar em obras como o TGV, ou o aeroporto, e o rumo certo para criar empregos numa economia em recessão. O manifesto divulgado na semana passada por 28 economistas, a pedir ao governo socialista para repensar os novos grandes projectos, não tem a concordância de muitos especialistas e já há três iniciativas públicas em marcha de sentido oposto: dois contra-manifestos e um ciclo de debates proposto pela Ordem dos Economistas.
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Wednesday, June 24, 2009

O PREÇO DOS PEANUTS

Há quem argumente, e com alguma razão, que se o Estado não investe em projectos de grande dimensão, e desvia o investimento público para obras de pequeno porte, o dinheiro investido acaba por ser em grande parte desbaratado em projectos sem sentido e sem retorno. E que, ainda pior que isso, se abrem novas oportunidades para uns quantos oportunistas comprarem viaturas de alta cilindrada, entre outros abusos afins.

Sabe-se que assim é, e muitos exemplos deste gastar sem critério, porque o dinheiro é dos outros, estão à vista de quem os queira ver. Em muitos casos, contudo, eles têm defensores ferrenhos, que votaram e continuam a votar naqueles que "fizeram obra", porque a obra lhes enche o olho sem lhes apoquentar directamente a barriga. Muitas dessas obras nascem por imitação, sem qualquer outro critério que as justifique. Se há um polidesportivo em tal parte também queremos um; se há courts de ténis nas cidades, também vamos ter uma coisa dessas aqui, mesmo que não haja quem saiba praticar; se acolá há uma rotunda, nós teremos duas; se os de lá de baixo encomendaram uma estátua a perpetuar os sapateiros, aqui honraremos os nossos padeiros.

Na minha aldeia, que agora é vila, vá lá saber-se porquê, está actualmente em curso a construção de um "anfiteatro ao ar livre, com bancada em circunferência ... numa zona de lazer de eleição para festas, eventos e para as ctuações das colectividades da terra". Estará pronto até final do mês e os trabalhos atingem os 205 mil euros. A vila tem, desde há muitos anos, três clubes de cultura e recreio (na designação antiga) com instalações próprias, duas das quais são mais que centenárias e a outra para lá caminha. Nunca tiveram tão pouca frequência. A cidade fica a meia dúzia de quilómetros, vão longe os tempos em que a aldeia tinha vida própria. Num parque infantil, junto ao local onde constroem o "anfiteatro ao ar livre" e noutro, na parte mais alta da vila, inaugurados há dois ou três anos com pompa e circunstância, não se vêm crianças.
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Ainda assim, há equipamentos que poderão oferecer alguma utilidade. Outros, claramente, não têm nenhuma, salvo os interesses próprios de quem os encomendou.
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Quem passa no IC19, um via rápida entre Sintra e Lisboa, nas imediações da saída para o Hospital Amadora Sintra, encontra instalado um painel (com uns três metros de altura) onde se lê "Amadora - Seja bem vindo" ou mensagem parecida. Dois quilómetros mais à frente, dois minutos de viagem se a via estiver desimpedida, outro painel idêntico "Amadora - Obrigado pela visita". Coisas deste estilo estão um pouco por toda a parte, ainda que o luxo dos painéis não seja o mesmo.
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Dir-se-á: São peanuts. O que é isto tem a ver com os milhares de milhões dos mega projectos?
Muito. Porque estes muitos peanuts (e nem tudo são peanuts) custam, somados todos, muitos milhões. São o indicador mais nítido da forma desbragada como se investem dinheiros públicos em Portugal.

Wednesday, March 18, 2009

SEM SAÍDA?

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As previsões daqueles que asseguram que se não houver redução concertada dos salários em Portugal essa redução acontecerá por imposição do crescimento do desemprego, porque o nível atingido pelo endividamento externo não permitirá continuar a suportar o défice da balança comercial com crescimento continuado de financiamentos externos, não tem tido a discussão pública que merece.
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Bem podem pregar Silva Lopes e Vitor Bento, e todos quantos chegam a resultados parecidos a partir das contas que fazem, mas, sobretudo em ano de eleições, nem o governo nem as oposições farão o mínimo gesto para abordar a questão, continuando a assobiar para o ar. Ainda anteontem, o Ministro das Finanças assegurou que não estava arrependido de ter aumentado o funcionalismo público em 2,9%, num ano em que a inflação não deverá ultrapssar 1% e crescimento será negativo em cerca de 3%, teria decidido no mesmo sentido se tivesse de decidir hoje. A decisão do governo, que vai em sentido totalmente contrário ao que recomendam V Bento e S Lopes, e não foi contestada por nenhum partido da oposição, arrisca-se ser politicamente inconsequente: com aumento ou sem aumento do funcionalismo público, o Partido Socialista ganharia as eleições com maioria relativa.
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Voltando ao assunto azedo, continuo a pensar que, sendo uma inevitabilidade, a redução real dos salários (que pode passar por um processo inflacionista na Zona Euro) pode, e deve, ser minorada por acções que reduzam a nossa estrutural dependência externa. Temos de exportar mais, é um objectivo com que todos concordam mas que, em conjuntura de contração, ninguém sabe como. Angola é uma boa alternativa, mas não chega. Para além de exportar mais, os portugueses têm de importar menos. Se lhes cortarem os salários, seguramente que as importações reduzir-se-ão. Mas terá de ser, forçosamente, assim?
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Duvido. Alguma margem de manobra deverá haver para aumentarmos a nossa autosuficiência alimentar, por exemplo. E quantos gastos não pode o Estado evitar, ou adiar?
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Ninguém quer falar disso. Por enquanto apenas o TGV e o aeroporto são motivo de discórdia. O resto é tabu.

Sunday, November 09, 2008

PING PONG

Caro TM,
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Tenho acompanhado desde há muito tempo a sua veemente chamada de atenção para a carga que podem representar os investimentos públicos de grande escala, nomeadamente o TGV e o aeroporto.E, no essencial, compreendo as suas preocupações. Penso, contudo, que sendo investimentos de realização que se prolonga durante vários anos, o seu adiamento "sine die" ou o seu cancelamento total, poderia ter efeitos negativos futuros, que teremos de comparar com os custos do esforço financeiro que eles impõem.Eu não sei se o TGV tem mérito económico suficiente para prosseguir viagem. Se não tem, o problema deveria resolver-se, cancelando-o, antes de colocarmos a questão do seu financiamento. Se tem mérito, a prova ácida passa pela sua concessão à iniciativa privada. Se alguém lhe pegar, é porque tem mérito e não vejo razão porque não prossiga.O Ministro M Lino disse muitas vezes que estes programas seriam entregues à iniciativa privada e, portanto, aos seus recursos.Nada que nos afecte a nós, cidadãos comuns, nem na dívida nem nos impostos. Teremos, os que usarem o TGV que pagar o bilhete e embarcar.Quanto ao aeroporto, podem colocar-se alguns problemas específicos de interesse nacional mas, mesmo neste caso, nada melhor que ouvir as partes privadas interessadas. Dir-me-á: O Ministro gosta de dizer coisas. Pois que diga e peguem-lhe na palavra. A discussão acerca do faz porque tem de ser feito ou não faz porque não há dinheiro, pode resolver-se pondo a palavra do senhor ministro à prova. Quanto aos "spread" serem diferenciados, parece-me a coisa mais natural do mundo. Os banqueiros sempre usaram cobrar mais a quem oferece menos garantias. E, já se sabe, se sobe o endividamento reduzem-se as garantias de o poder pagar. Até ao dia em que não emprestarão mesmo, qualquer que seja o "spread" considerado. Mesmo entre banqueiros. Ouvimos falar disso bastante nos últimos tempos.Há ainda um aspecto que pode não ser totalmente irrelevante nos tempos que correm, embora eu não lhe veja pessoalmente grande interesse. É da sabedoria popular que tem um problema quem deve mil ao banco; se deve um milhão o problema é do banco. Nos tempos que correm, receio que um dia destes as vantagens estejam do lado dos devedores.Que lhe parece?
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TM - O que me parece? Parce-me óptimo, com duas ou três pequeníssimas ressalvas que passo a enunciar.1ª) Não estou nada preocupado, ao contrario do que o meu preclaro sugere, com o acrescimo de endividamento a que assisto...até reputo de algo divertido o ar de satisfação com que muitos dos meus compatriotas vão participando neste espectaculo de asneira em cima de asneira que nos vai atirando para uma situação de enorme aperto, com o ar mais descontraído deste mundo...2ª) Não percebo, confesso, o que tem a ver o longo prazo de realização destes investimentos/Programão, com os custos do seu eventual adiamento - até penso, talvez por ignorância admito, que o longo prazo de realização e os elevados custos de capital inerentes a essa característica deveriam constituir motivo para uma reflexão mais ponderada, antes de tais investimentos se iniciarem...3ª) Admiro muito sua postura, quanto mais endividados mais descontraídos, só temo que a mesma não seja compatível com a nossa "filiação" no famoso Pacto...4ª) Quanto à subida dos "spreads", registo sua indiferença e tranquilidade perante o fenómeno- que reconheço serem coerentes com a despreocupação quanto ao agravamento da dívida.
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Volto só para precisar que também eu estou preocupado com o endividamento, do Estado, das famílias, dos bancos. O que referi foi a possibilidade, em que não estou pessoalmente interessado, disse, de a evolução da crise poder favorecer os que devem e prejudicar os que pouparam. Já estamos a assistir a exemplos destes.E gostaria ainda de comentar "Não percebo, confesso, o que tem a ver o longo prazo de realização destes investimentos/Programão, com os custos do seu eventual adiamento"Como comentei, se os projectos têm mérito económico, isto é, se apresentam níveis de rentabilidade bastante para justificarem o investimento, o seu retardamento pode atrasar as vantagens da sua existência. Se essas vantagens existirem.É, claramente, o caso do aeroporto.Eu não sei se o novo areoporto se justifica ou não desde já. Mas se essa justificação existe, o adiamento tem de ser confrontado com os custos financeiros que isso implica, spreads agravados considerados. Salvo melhor opinião.De qualquer modo, a confrontação com as palavras de Mário Lino de que o investimento público seria reduzido deveria ser levantada. Porque não se desafia o Ministro a esclarecer se avança no sentido que disse estar aberto?
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TM - Eu desafiar o MOP a esclarecer o que quer que seja?Meu Amigo toma-me por lunático ou emestado demencial? Olhe que disso já gosto pouco, não lhe acho muita graça...Quanto à história do investimento privado, desde que conte com garantia do Estado para assegurar uma dada rentabilidade, como sucede nas actuais SCUT's (por falar nisso, quando são introduzidas as portagens prometidas há dias pela 54ª vez?) - é investimento sem risco para esss investidores mas com enormes custos para o Estado.É esse modelo que meu Amigo preconiza?
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De modo algum. Por isso lhe chamei "prova ácida". Se um investimento tem mérito, terá financiamento, sempre ouvi dizer.Ora, quem melhor do que a iniciativa privada para avaliar esse mérito?Mas se, eventualmente, uma parte desse mérito resida no interesse público, avalie-se esse interesse e o custo do mesmo. É uma questão de contas, suponho.Ora o que vejo é uma discussão acerca do "fazemos porque sim", não fazem, não senhor "porque não há dinheiro". Parece-me pouco consistente mas muito frequente neste país. Aproveito para clarificar que estava muito longe da minha ideia atribuir-lhe a si, meu Caro Amigo, a incumbência de desafiar o Ministro. Quando escrevi "Porque não se desafia o Ministro..." interrogava-me, em voz alta por isso o meu Amigo ouviu, porque razão não confronta a oposição o governo em sede própria?Ouvi ontem a intervenção do líder da bancada do PSD acerca dos grandes investimentos, tendo o minstro para os assuntos parlamentares interrogado em seguida, que "investimentos cortaria o PSD" para compensar os aumentos de despesa resultantes das suas (do PSD) propostas". Respondeu Rangel que necessitava, para responder, de saber valores que o governo não disponibilizara à AR.E, mais uma vez, me interrogo: Porque não confrontou Rangel o governo com as palavras do ministro das obras públicas acerca do investimento privado no aeroporto e no TGV? E, interrogo-me ainda,que AR temos nós que aceita discutir o OE sem os elementos que reputa importantes para a sua análise? Trata-se de uma exigência excessiva ou de uma recusa imperdoável?Interrogo-me.
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TM - O que adianta a iniciativa ser privada, como sustenta, se o risco do negócio fica ou corre por conta do Estado? Como nas pobres SCUT's?O (...) Rui Fonseca não esclareceu aliás quando é que as portagens serão introduzidas em SCUT's, depois dessa introdução ter sido reiterada há cerca de 2/3 semanas, pela 54ª vez...Os debates na AR não servem para esclarecer o que quer que seja meu Caro, aquilo funciona em regime de encenação permanente, a ver quem consegue arrancar a melhor tirada do dia que é isso - e só isso - que os jornais publicam no dia seguinte!peço-lhe assim que esqueça o contributo possível da AR para o esclarecimento deste tipo de problemas.Surpreende-me um pouco, confesso, a sua relativa indiferença "en ce qui concerne le probleme du choix des investissements"...quando os recursos próprios são inexistentes e os projectos terão se ser financiados externamente a 100% ou quase... (...)
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"quando os recursos próprios são inexistentes e os projectos terão se ser financiados externamente a 100% ou quase..."Mas estes investimentos do "programão", como lhe chama, podem ser realizados por investidores externos, se , repito, os investimentos têm méritobastante. Porque se não têm, e só se sustentam com o Estado a servir de tutor, deveriam ser esquecidos.Parece-me que não estamos tão em desacordo quanto isso. A diferença está em que o meu Amigo alerta que não há meios; eu, salvo melhor opinião, penso que o que eles não terão é mérito suficiente para avançarem pelos seus (deles) pés.
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TM - Verifico, com agrado, que nos encontramos numa convergência de trajectórias dialéticas...A insuficiência de recursos financeiros e as dúvidas quanto à bondade intrínseca destes projectos devem, no mínimo, impor uma pausa para reavaliação - da qualidade dos projectos e dos meios a mobilizar.Falta ainda saber quanto à introdução de portagens nas SCUT's - que me lembre só MFL fez isso, na CREL em 2002, com o alarido de que certamente se recordará, em grande parte alimentado pelo grupo da rosa...Mas convenhamos que prometer pela 54ª vez e não cumprir - não será demais?Ou será que o grupo da rosa terá receio de um alarido similar ao de 2002?
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"Ou será que o grupo da rosa terá receio de um alarido similar ao de 2002?" (...) Os alaridos tenho-os ouvido, enquanto cidadão apartidário, de todos os lados. O mais memorável terá sido o buzinão na ponte, apoiado descaradamente pela oposição da altura.Neste momento há uma forte razão para que as Scut sejam portajadas mais dia menos dia: as receitas serão cada vez mais escassas e as despesas mais prementes. As crises também têm alguns aspectos positivos. Penso eu, que sou optimista.
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TM - "Mais dia menos dia"...importa-se de ser um pouco mais preciso?Estaremos a falar em alguns dias, dezenas de dias ou centenas de dias?Não menos de 365, depois de evitar o assunto durante o período eleitoral?Quer dar um pouco mais de luz a esta sua visão (confessadamente) optimista?Será que essa crise de que fala terá mesmo este aspecto positivo - ou será exactamente ao contrário?
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A minha convicção não é inabalável mas escora-se naquele princípio filosófico que garante que quando não há dinheiro não há vícios. E parece que ele (o dinheiro) se está tornar escasso. A menos que uma súbita abundância o desvalorize. É por causa de uma subida inflacionista, possível ainda que improvável, suponho, que lhe referi as vantagens que dela poderão retirar os devedores. As complicações começam a ser tantas que as tentações para "resolver" as dívidas através de um processo inflacionista podem ser muitas.Receio meu, (...)
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TM - O FMI, no update do World Economic Outlook ontem divulgado, aponta um valor para a inflação na Zona Euro inferior a 2% em 2009, podendo mesmo vir a ser da ordem de 1% lá para o final do ano,em termos homólogos...Como explica meu Ilustre Amigo essa hipótese inflacionista para "ajudar" a resolver dívidas?Olhe que um cenário "debt-deflation" não é tanto de excluir - "but it is a plague to be avoided at all costs", nas sábias palavras de Martin Wolf, no seu comentário da pág. 2 da edição de hoje do Financial Times...
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Nenhuma das hipóteses é boa, mas eu também referi como improvável uma situação de estagflação.Que, no entanto, não será impossível. Temos assistido nos últimos tempos a uma autêntica montanha russa com picos altíssimos das commodities (petróleo, bens alimentares, sobretudo) e depois quedas bruscas. Ninguém nos garante que o caroussel não possa inverter a tendência dentro de algum tempo.Mesmo contra as previsões do FMI.E em situação de estagnação inflacionária, alguns devedores, se os seus rendimentos acompanharem o nível de preços, nas suas dívidas (empréstimos para habitação, por exemplo) verão as suas prestações sensivelmente minoradas, e tanto mais se o crescimento dos juros ficar aquem dos níveis de inflação.
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TM - Estou curioso para perceber como é que me Amigo concebe, numa hipotética situação de estagflação - estagnação inflacionária, para usar sua formula - que um numero significativo de devedores consiga obter um crescimento dos seus rendimentos igua ou acima da inflação...Olhe que nem todos os cidadãos são deputados, membros do(s) Governo(s), autarcas, gestores ou qadros superiores de empresas publicas, empresas municipais, altos quadros da administração publica, regional ou local, titulares de outros importantes cargos publicos, etc...Bem sei que esses são muitos, admito por isso que esteja a contar fundamentalmene com esses...será?
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Chegado aqui, tenho que começar por agradecer-lhe a sua imensa paciência.Quanto à questão que me coloca, e tendo eu começado por dizer que considero improvável mas não impossível o cenário de estagflação, o exemplo mais imediato que me ocorre é o que irá acontecer no próximo ano: o governo aumenta os salários dos funcionários públicos em 2,9%, acima da infação prevista.É claro que, como não há milagres, esse aumento redundará em pressoes inflacionistas, sobretudo se os movimentos sociais empurrarem os salários em geral no sentido ascendente.Cria-se um caldo propício a um processo inflacionista promovido pela antecipação do crescimento dos salários.Dir-me-á, R Fonseca, isso era no tempo da moeda macaca, o meu Amigo não se esqueça que agora estamos na Europa.Ora, repetindo que creio e que quero acreditar, que se trata de uma situação improvável, nada impede que o mesmo processo se alastre mesmo a países com mais juízo que o nosso.Nos tempos que correm anda muita insegurança e falta de confiança à solta. Se, como dizem, o pior está ainda por vir, as convulsões sociais poderão forçar a adopção de políticas de emergência que, como se sabe, acabam por ter custos elevados mais tarde.Fantasias minhas, por ouvir tanta gente a falar da crise? Oxalá.
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TM - Ao cabo de uma longa maratona de comentário e contra-comentário em que o fair-play foi nota dominante (como não podia deixar de ser entre pessoas que se respeitam), julgo estar em condições de concluir que o melhor será aguardar para ver...É uma conclusão tipicamente la-palissiana, mas julgo não serem poucas as vezes em que seguir a esteira de Mr. de La Palisse se revela opção sensata e segura...

Friday, November 07, 2008

ACERCA DE PRIORIDADES


"...Todos os anos dependemos do financiamento externo em cerca de 10% da riqueza nacional, obtido em cerca de 60% através do endividamento do sistema bancário no estrangeiro. O endividamento externo do país já ultrapassa o PIB. E os juros que implica, ou seja, os rendimentos saídos de Portugal para os seus credores externos, apresentam uma tendência crescente preocupante ..."
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Eduardo Catroga, A CRISE FINANCEIRA E AS PRIORIDADES ESTRATÉGICAS, in Expresso.
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À economia portuguesa não faltam encruzilhadas e alguns becos sem saída.
O crescimento da dívida externa é um desses caminhos da economia portuguesa por onde parece não haver saída. O endividamento, quando atinge volumes que superam os valores da actividade que financia, auto reproduz-se através dos juros que gera, criando uma espiral imparável que só pode ser contida com medidas duras. A menos que da capacidade instalada se passe a retirar mais rentabilidade e com a poupança interna se consiga amortecer o crescimento da dívida, hipótese altamente improvável em tempos de crise.
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É este constrangimento que está a fazer polarizar a discussão do investimento público à volta dos mega projectos (Aeroporto e TGV), invocando o governo que no próximo ano os encargos assumidos no âmbito desses projectos serão reduzidos, reclamando a oposição que o investimento público se dirija para projectos que promovam o crescimento da produtividade nos sectores de bens transaccionáveis, factor incontornável do crescimento económico, e se adiem ou cancelem os grandes projectos.
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Inquestionavelmente, foi a crise que introduziu a questão da dívida externa na discussão pública do mérito do aeroporto e do TGV, uma vez que ainda há bem pouco tempo a discussão se centrava renhidamente, no caso do aeroporto, à sua localização na Ota ou em Alcochete, e, no caso do TGV, no seu traçado.
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Independentemente de qualquer julgamento acerca do mérito económico destes dois mega projectos, que eu não estou habilitado a fazer, há uma regra que em abstracto é universalmente válida: é o mérito económico dos projectos que conta e não a possibilidade do seu financiamento;
havendo mérito, haverá seguramente financiamento. Aliás, o ministro das obras públicas assegurava, ainda há bem pouco tempo, que os mega projectos requeriam uma comparticipação reduzida do OE por haver iniciativa privada interessada na sua realização e exploração. Levantou vôo para outras paragens a iniciativa privada a que o ministro se referia por causa dos vendavais da crise ou, realmente, carecem os tais megaprojectos de interesse que lhes garanta rentabilidade interessante?
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Parece-me, portanto, que a discussão actual tem muito mais incidências de luta política partidária do que de análise do interesse económico dos investimentos em causa, e, sobretudo da sua capacidade para remunerar os capitais que a sua execução requere.
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Ora tem sido esta falta sistemática de teste em prova ácida da capacidade dos investimentos justificarem os capitais investidos, garantindo ou promovendo a garantia da remuneração do "cluster" em que se inserem, que esteve, e continua a estar, na origem do crescente endividamento externo. E não foram apenas os investimentos públicos mais disparatados, de que os estádios para o euro/2004 são porventura o exemplo mais flagrante de irracionalidade económica, que contribuiram para a situação actual. A dependência da economia portuguesa da construção civil teve, e continua a ter, efeitos alucinogénos que ninguém parece saber como conter. Grande parte do endividamento externo (e a CGD tem dado mau exemplo) canalizado pelos bancos dirigiu-se para o financiamento da construção de habitações que já excedem largamente o número de famílias residentes (cerca de 3o%). É por demais evidente, que não podem ter estes investimentos rentabilidade bastante que assegure um fluxo de reembolsos pelo menos idêntico aos valores tomados de empréstimo para o financiamento de mais construção e refinanciamento de empréstimos anteriores.
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Verdade seja que a economia portuguesa está longe de constituir um caso singular de dependência do betão armado. A crise com que o mundo depara actualmente decorre em grande parte desse excesso não suportado por poupança interna.
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Contudo, voltando ainda aos mega projectos, não creio que o endividamento externo de residentes em Portugal (famílias, empresas, estado) comprometa o financiamento externo desses projectos. Afinal, se eu tiver um projecto de mérito económico A+++, ao financiador é indiferente que ele seja realizado em Portugal (endividado) ou na China (poupada). O facto de Portugal fazer parte do SME evita a contaminação dos malefícios do factor proximidade do endividamento.
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Consequentemente, e pelas mesmas razões, a canalização dos recursos para investimentos privados só não comprometerá ainda mais a nossa dependência externa se tiverem mérito para, pelo menos, remunerarem os capitais investidos. Mas com a propensão nacional para a construção civil, receio que continuemos, sobretudo, a construir mais casas. Talvez porque nos falte capacidade para fazer outras coisas reprodutivas. E aí, sim , reside o nosso problema.

Thursday, January 10, 2008

ALCOCHETE

Nada sei de aeroportos.
Mas sei que Mário Lino, contrariamente ao que diz Sócrates, não vai ter condições para permanecer no Governo, e sairá um dia destes para presidente do conselho de administração de uma empresa, pública ou privada.
Quanto à opção do Governo por Alcochete, ela contraria muitos vaticínios que davam como altamente improvável que Sócrates deixasse cair a Ota, demais a mais com Mário Lino como Ministro.
O que é mais surpreendente, contudo, neste caso, são os anos e os milhões que se queimaram no estudo de uma solução que não resistiu a um estudo feito em meia dúzia de meses.
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Alcochete arruma o referendo. O que virá arrumar Alcochete?
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Hoje mesmo, noticia o Público que as instalações de uma antiga prisão em Setúbal foram vendidas a privados e compradas por um ex-sócio do ministro da Justiça por 3,4 milhões de euros. Tinha sido adquirida em 1998 por 4 milhões.
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Jamais deixaremos de ter uma qualquer bronca a desovar ao virar da esquina de cada dia.
Jamé.