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Tuesday, May 24, 2016

RECEBER PARA NÃO TRABALHAR

A proposta vai ser referendada na Suíça - vd. aqui -, mas, segundo as sondagens, será rejeitada.
Mas a ideia surgiu, e, muito provavelmente, fará o seu caminho até vir a ser aprovada pela maioria dos suíços, num futuro que pode não estar distante.  
Segundo a mesma notícia, o Canadá, a Holanda e a Finlândia estão a ponderar medidas semelhantes.

Por agora, a intenção espanta; num futuro mais ou menos longínquo, que não posso avaliar nem certamente viverei para poder observar, espantará a passagem ao patamar seguinte: 
Pagar para trabalhar. 

A capacidade humana de consumir é limitada pelo tempo; a capacidade de produção só defronta limites na exaustão dos recursos materiais. 
Num mundo economicamente globalizado, a competitividade acelera a produtividade e esta significa a redução de efectivos necessários à produção consumível. O emprego contrai-se e o trabalho será um bem cada vez mais raro.

E o que é raro, paga-se.

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Correl . - Job security is living the millennial dream

Saturday, December 08, 2012

A ECONOMIA DO DESPERDÍCIO

Os portugueses desperdiçam um milhão de toneladas de alimentos por ano, equivalente a cerca de 17% do consumo. Menos que a média europeia, vá lá, desta vez não somos dos piores. Mas mesmo assim não deixa de ser uma notícia chocante quando confrontada com as que, quase diariamente, nos relatam situações de tanta gente próxima de nós a sobreviver faminta. Fisicamente mais distantes, mas a entrar-nos em casa pela televisão, as imagens de populações, sobretudo em África, a morrer à míngua, só não nos esmagam porque a sua banalização criou na humanidade uma carapaça de indiferença quase absoluta que só momentaneamente é atravessada por um incómodo transitório.
 
Leio esta notícia e ocorre-me, obviamente, aquilo que é muito comum nos EUA, um país onde o produto per capita é superior ao dobro do dos portugueses: levarem as pessoas para casa o resto do que sobra das refeições tomadas em restaurantes. Não sei qual é a percentagem de alimentos desperdiçados pelos norte-americanos, mas imagino que nos caixotes de lixo dos restaurantes que frequentam a percentagem de sobras seja mínima. E, conclusão minha, não me parece que quem leve do restaurante o que lhe sobra no prato não tenha a em casa preocupação idêntica.
 
Outra comparação que me ocorre, a este propósito, é a quantidade de compras com que os portugueses carregam os carros nos supermercados. Tanto nos EUA como na Suíça, outro país com um nível de vida médio mais que duplamente superior ao nosso, os carros das compras raramente passam nas caixas com os volumes de carga  que se observam nos supermercados em Portugal. Compram menos que nós? Não é possível. Compram mais frequentemente, de acordo com os consumos semanais. Os portugueses habituaram-se a comprar por atacado, e os supermercados persistem, apesar da crise ou por causa dela, em incutir nos consumidores, através de promoções constantes, o frenezim da compra.  Resultado: quando o stock excede as necessidades normais de consumo para um determinado período, ou há sobre consumo ou deterioração de alguns artigos, ou uma coisa e outra.
 
O serviço público que pagamos à RTP deveria ocupar-se disto, mas à administração da RTP (ou aos governos?) preocupa-a mais entreter o pagode com coisas pseudo cómicas como o "Preço Certo".

Sunday, May 06, 2012

O PINGO SUÍÇO

Já depois de ter colocado o comentário que transcrevi daqui, aqui, quis o acaso ter conseguido esta fotografia


A Migros,  maior cadeia de hipermercados suiça, sustenta a sua campanha publicitária num slogan dirigido ao sentimento comum dos consumidores suíços: ajuda-te, ajudando o teu vizinho.

Ouvimos tantas vezes que não podemos continuar a "consumir mais do que produzimos", pelo menos quantas nos espantamos com a preponderância de produtos importados à venda nos centros comerciais e hipermercados.

O consumidor, argumentam os radicais liberais, não é acéfalo.
Pois não, mas é frequentemente intrujado.
As crises com que nos confrontamos (a estruturalmente nossa, e a conjunturalmente importada) decorrem em grande medida da confusão entre os interesses imediatos (com que se intruja o consumidor) e os mediatos com que se suporta o crescimento sustentado das sociedades.

É, parece, o que pensam os suíços, que são liberais quanto baste, e não se têm dado mal com isso.

Monday, December 05, 2011

OS SINOS DE ADLISWIL



Adliswil nasceu e cresceu num vale, animada por uma indústria de têxtil, instalada junto ao rio, que há muito tempo deixou de existir. Hoje, é uma vila residencial de classe média a poucos quilómetros de Zurique. Tem duas igrejas cristãs: A Católica e a Protestante (Igreja Suíça Reformada). Construídas quase frente a frente uma da outra, a meio das encostas do vale, separa-as uma distância de cerca de um quilómetro. Com arquitectura semelhante, é também semelhante o dobrar dos seus sinos, proporcionando um concerto maravilhoso ao cair da tarde.

Foi esse concerto de tranquilidade que me levou a escrever esta nota.
Curiosamente, antes de o fazer, leio uma notícia de que em Nova Petrópolis, Rio Grande do Sul, Brasil, foi necessária a intervenção do estado para sossegar os ânimos entre católicos e protestantes acerca dos tempos máximos permitidos para badalar os sinos. (vd aqui).

Se em Nova Petrópolis o Ministério Público é chamado a interceder num conflito acerca dos tempos e momentos do badalar dos sinos, a vida em Nova Petrópolis deve ser um inferno.
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As of 2008 there were 5,275 Catholics and 4,999 Protestants in Adliswil. In the 2000 census, religion was broken down into several smaller categories. From the 2000 census, 38.6% were some type of Protestant, with 36.2% belonging to the Swiss Reformed Church and 2.4% belonging to other Protestant churches. 35.5% of the population were Catholic. Of the rest of the population, 5% were Muslim, 7.8% belonged to another religion (not listed), 3.8% did not give a religion, and 13.2% were atheist or agnostic.[4] The Sri Sivasubramaniar Temple is situated in the Sihl Valley .(aqui)

Friday, December 02, 2011

PARADOXOS À PORTUGUESA

É intrigante, para quem não conhece os meandros do negócio, que em Portugal o número médio de leitores por cada jornal ou revista publicada seja dos mais baixos dos países ditos desenvolvidos mas, em contrapartida, seja dos mais elevados o número de títulos publicados por cada milhar de habitantes. Mais intrigante ainda é a subsistência deste aparente paradoxo ao longo de décadas, ainda que alguns títulos tenham sido substituidos ao longo dos anos por outros. Em princípio, a análise económica só pode explicar isto se aos proveitos directos do negócio forem acrescidos outros factores exógenos.

Houve tempo, à volta de três décadas atrás, que alguns jornais susbsistiam porque não pagavam o papel que consumiam, assumindo que o Estado (sempre ele) tinha a obrigação natural de fornecer, gratuitamente ou quase, o papel necessário. As dívidas subiram até níveis insuportáveis para a empresa pública incumbida de aguentar o fardo, até que um dia alguém, que cortou os fornecimentos aos devedores crónicos,  foi chamado ao ministro da tutela e o escândalo começou a ser reduzido nesse dia.

Acabaram os jornais ou reduziu-se o número de títulos? Não. Aumentou significativamente o número de leitores por título publicado? Também não. Reduziu-se a qualidade do papel e da impressão? Não se reduziu a qualidade e até aumentou, ao ponto de alguns dos jornais portugueses conquistarem prémios internacionais de grafismo. 
Aliás, é flagrante  a diferença na gramagem do papel revestido utilizado por algumas das mais conhecidas revistas portuguesas com as gramagens reduzidas das revistas estrangeiras universalmente conhecidas (Time, Newsweek, Economist, por exemplo). Dir-se-á, com cabimento, que o papel conta relativamente pouco no custo final da revista ou do jornal. Mas tratando-se de um custo variável, a preponderância dos custos fixos apenas torna ainda mais paradoxal o aparente sucesso de uma indústria com poucos clientes.

Ocorreu-me, mais uma vez, esta questão ao ler uma revista portuguesa oferecida gratuitamente pela TAP a todos os passageiros e outra, também gratuita, à disposição também de todos os passageiros (normal nas companhias aéreas) pela companhia suiça com quem a portuguesa tem acordo de co-share. Tanto a revista portuguesa como a revista da companhia aérea suíça têm 136 páginas. Na portuguesa, uma revista dirigida à classe média, 16 páginas são dedicadas a publicidade a relógios suíços. Na segunda, uma revista dedicada a passageiros de e para a Suíça, 20 páginas são dedicadas à publicidade de relógios suíços.

Que os relógios suíços invistam em publicidade na revista da companhia aérea suíça, percebe-se. Que uma revista portuguesa dirigida à classe média mereça o investimento publicitário do mesmo produto suíço de quase igual ordem de grandeza, pelo menos em espaço ocupado, é paradoxal, não é?

Thursday, September 15, 2011

TAMBÉM TU, SUÍÇA?

A banca suíça tem fama (e proveito) de proceder com discrição e prudência.

Não por acaso, na situação de crise que se atravessa no sistema financeiro, e particularmente na zona euro, ( a crise do euro está a levar as famílias e empresas da Grécia, Irlanda, Espanha e Itália a retirarem as poupanças dos bancos; a diminuição do saldo dos depósitos chega aos 40% no caso irlandêsaqui) o franco suíço tem sido, como várias vezes na passado, procurado como refúgio, como se fosse ouro. Como a praça de Zurique é uma praça forte mas a Suíça é um país pequeno (cerca de 7 milhões de habitantes) a excepcional procura de francos suíços atirou com as suas cotações para níveis insuportáveis para a economia suíça, e o Banco Central Suíço teve de intervir decidindo-se por ligar a cotação da sua moeda sua  ao euro (1 euro não menos que 1,2 francos suíços).  

Mas até na Suíça as tradições mudam, mesmo as banqueiras.

O maior banco suíço, a UBS, foi obrigado a reconhecer nas suas contas, em Abril de 2008, perdas de 37 biliões de dólares decorrentes da burla em que se deixou incorrer ao investir produtos financeiros intoxicados com obrigações sub-prime, made in USA. O presidente foi obrigado a demitir-se.  

Hoje, é notícia que o UBS voltou a sofrer perdas pesadas decorrentes de operações que não controlou ou controlou mal: um dos seus agentes agentes, da sua banca de investimentos,  operou sem permissão e provocou perdas de 2 mil milhões de dólares - aqui.

Acontecimentos destes ocorrem, estou certo disso, todos os dias em toda a parte onde se realizam operações destas. A esmagadora maioria, porém, é dissolvida, ou porque são os clientes/investidores que suportam as perdas, ou porque as perdas não têm a dimensão medida em milhares de milhões. 

Nada disto seria dramático se não existisse a promiscuidade entre a banca de depósitos e a impropriamente designada banca de investimento. Se dos jogos financeiros realizados por esta não resultassem consequências muito negativas para aquela, nada a opor pelo cidadão comum que não tem hábitos de jogador. Acontece que não é assim: Quando as perdas decorrentes da banca de investimento ameaçam a solvência do banco, a ameaça de risco sistémico obriga os Estado a intervir e a lançar impostos sobre os cidadãos para resgatar o sistema.

Esta a razão fundamental da crise aque atravessamos.
Neste bloco de notas já abordei o assunto dezenas de vezes.

Tuesday, June 14, 2011

MEIN NAME IST URS - 2

Milagro! Oh Milagro, nice dog! Vamos? Subimos de teleférico ou a pé? A pé é um bocado duro porque depois ainda temos umas cinco horas de caminho, contando com o tempo para almoço. Bom. Então é melhor subir de teleférico, os cães podem não aguentar a subida, a Cherry, sobretudo, não é Cherry? O Milagro paga meio bilhete. Eu e a Cherry temos passe anual. Oh! Adoro a floresta. Venho para aqui desde pequeno. Quando era miúdo vinha para aqui com o meu pai. Ele era caçador. Eu também. Aqui caça-se veados,  javalis, patos, sim patos também, não é anti natureza, não senhor, porque, quando são  demais, causam muitos prejuízos aos agricultores. Estás a ver aquelas duas igrejas lá em baixo? Uma é católica, a outra protestante. Tu, o que és? Católico? Eu sou protestante. Frequentei aquela igreja até há bem pouco, agora não vou mais. Não vou mais porque os actuais pastores, são dois, um é norte-americano, o outro é alemão. Fazem muito show off, sabes como é, muita exaltação, muita propaganda, não gosto, não gosto e deixei de ir. Anteriormente, tínhamos uma pastora, alemã, discreta, mas muito próxima das pessoas e dos seus problemas. Através da nossa fundação (PanEco) a igreja contribuiu com vinte mil francos para as vítimas do tsunami na Indonésia. Portanto, agora deixei de ir à igreja, estou em contacto directo com Deus, e não tenho dado pela falta dos intermediários. Em Setembro volto à Indonésia, a Sumatra. Vou lá estar um ou dois meses. Eles gostam do meu trabalho. Temos um escritório com uma casa de hóspedes, é lá que eu fico instalado. Para Sumatra a maior ameaça é a contínua razia da floresta tropical para a plantação de palmares (cf aqui). Não, não vejo como é que esta ameaça possa ser controlada, já que extingui-la parece-me impossível, tantos são os interesses em jogo. A única forma que vejo de minimizar o desastre ecológico é oferecer às populações soluções alternativas às possibiliddes de emprego que os palmares oferecem. Mas é uma luta desigual porque a corrupção é muita. Antes da queda de Suharto, prestei informações à CNN e à BBC acerca da corrupção na Indonésia. Quiseram prender-me no aeroporto, já estava a embarcar. Foi por pouco. Not funny, no, not  funny story. Ainda me apertaram o pescoço. É verdade, ainda sinto as mãos deles aqui. Not funny, no. Oh! Gosto disto, gosto de flores, olha esta orquídea silvestre, linda, hem?! E gosto deste céu com sol e nuvens. Não gosto do céu  todo azul, sem nuvens. Falta-lhe qualquer coisa quando não há nuvens no céu. Eu acho. Milagro! Hei Milagro! Nice dog! A Cherry fica com ciúmes quando faço festas ao Milagro. Cherry! Vem cá Cherry! Fizeste serviço militar? Eu fiz, dos vinte aos cinquenta. Estúpido! Agora é dos vinte aos trinta e oito, salvo erro. Para as mulheres também, mas para as mulheres é voluntário. Obrigatório, só para os homens. Três semanas por ano. Ou na Primavera, ou no Verão, ou no Outono, ou no Inverno, em rotação. Durante três semanas por ano andamos por aqui a dar tiros. Uma estupidez. Eu era de infantaria. Só os técnicos não andam para aí aos tiros. Eu era técnico de profissão, responsável pela secção mecânica do meu Instituto mas aqui era de infantaria, bum!bum!bum! andávamos para aí aos tiros. Durante trinta anos! Uma estupidez. Quando saímos, ficamos com a pistola metralhadora em casa. A arma e as munições. Outra estupidez. Há tipos que ficam malucos e depois andam por aí aos tiros. Uma estupidez! Estás a ver ali aquela clareira em baixo? Deve estar cheia de restos de munições. Continuam a vir para aí a dar tiros. Logo, aqui, nesta paisagem magnífica. Yellowstone, conheces? Não, eu nunca lá estive. Nunca fui à América. Não gosto da América desde o tempo em que elegeram o Reagan, o Bush, o pai e o filho, qual deles o pior, não gosto pelo que eles fizeram no Vietname. Sim, do Obama gosto. Mas ele não consegue fazer nada por causa dos republicanos. Olha lá em baixo, aqueles grafiti. Gostas grafiti? Eu não gosto nada de grafiti. Acho mau gosto, mesmo muito mau gosto. A juventude de hoje não respeita nada. O grafiti é uma invenção americana, veio de lá, sabias?Hei! Sentemo-nos aqui ao lado destes dois jovens. Sabes que idade têm? 91, cada um. Ele queixa-se que está mal das pernas, ela ri-se. Noventa e um, e de cabeças limpas, oh! E ainda se queixa das pernas. Milagro! Cherry! Vamos lá. Ainda temos três quartos de hora à nossa frente. Estás cansada Cherry? A Cherry já está um bocado cansada.  

Monday, June 13, 2011

CÂNDIDA

Aqui, trabalho há 15 anos, mas vim para a Suíça há 23, tinha 22.
Um dia, vivíamos então no Fogueteiro com a minha mãe, inscrevi-me num estágio para hotelaria aqui na Suíça através de um departamento da embixada em Lisboa, fui aceite e vim para Genéve. Em Genéve, encaminharam-nos para vários locais, a mim coube-me um restaurante, muito pequeno, nas montanhas. Eu não sabia alemão, na estação de caminho de ferro estava a filha da patroa à minha espera, ela só sabia falar alemão, eu sabia qualquer coisa e inglês, ainda hoje estou para saber como acabámos por nos entender. O certo é que ao fim de um ano decidi continuar. Tinha o namorado, mas ele estava na tropa quando saí de Portugal, não havia compromissos de parte a parte, mas quando ele saiu do serviço militar disse-lhe: se queres vir para cá, vem. E ele veio. Até hoje. Temos um filho de 15 anos, acabou este ano a frequência do ensino obrigatório, candidatou-se e foi aceite para o ensino técnico. Quer ser tipógrafo, ou topógrafo?, desses que andam por aí a tirar niveis, isso, topógrafo. Um dos meus irmãos é topógrafo na Guiné Equatorial e ele quer ser topógrafo como o tio. Diz que não lhe agrada o trabalho dentro de casa, gosta de andar por aí. Aqui o ensino técnico é diferente: Os alunos que completam o secundário podem começar a trabalhar e continuar a estudar. Como estudante de topografia, trabalha nove meses e frequenta a escola durante três, durante quatro anos. No primeiro ano ganha 750 francos, no segundo, 850, no terceiro, 1100,  e no quarto, 1600. Mas depois pode continuar a estudar. Pode ser engenheiro. Mas ele, para já, o que quer é começar a trabalhar. E nós achamos bem. O meu homem trabalha num banco de judeus em Zurique, não sei se conhece, trabalha na manutenção, mas na realidade o que eles fazem é chamar empresas para reparar o que está avariado. É um bom emprego. Eu agora só trabalho a 50%. Fiz uma operação ao coração, colocaram-me um pacemaker. Temos seguro de saúde, é obrigatório, pagamos cerca de 830 francos suíços por mês pelos três, mas foi o que me valeu. Sabe quanto me custaria a operação se não tivesse seguro? Uns 54 000 francos!
De renda de casa pagamos 1700 francos, mas inclui água e gás, só não inclui a electricidade. Se no fim do ano gastarmos mais ou menos água ou gás que o previsto recebemos ou pagamos as diferenças. Está tudo muito caro? Pois está. Mas os ordenados são razoáveis. E, depois, sabe como é, não vamos a restaurantes, ao café, nada disso. Nas férias, vamos até Portugal, vou lá daqui a duas semanas, o resto ficamos por cá. A minha mãe esteve cá três semanas connosco, saiu daqui a semana passada, dizia, vocês não querem  ir tomar um café fora hoje? Fomos uma vez, arrepiou-se com a conta e disse mal do café, que o lá de casa é que é bom. Mora em Corroios. Somos quatro irmãos, filhos dela, porque o meu pai deixou-nos ainda éramos miúdos e andou por lá a fazer outros. Durante muito tempo pensámos que éramos seis, depois apareceu um sétimo, há tempos ficámos  conhecer o oitavo. Ele já morreu, era polícia, mas um grande malandreco por saias. Nasceu em Trás-os-Montes, em 1958, acho que foi em 58, estava na tropa e foi mandado para a Índia. Lá conheceu a minha mãe, uma goesa, pois eu não tenho muitos traços indianos, não, a minha irmã que tem aqui ao lado uma boutique de roupas para criança, é uma simpatia a minha irmã, mais velha que eu dois anos, essa sim, tem mesmo ar de indiana. Passem por lá, ela adora falar com toda a gente. Nasceu em Trás-os-Montes. Os meus pais tinham casado em Goa, quando os militares portugueses voltaram, ele voltou para a terra. Mas por pouco tempo. Abalaram para Angola, para Nova Lisboa. Onde eu nasci. É, sou angolana. Em 75 tivemos de vir para cá. Instalaram-nos, provisoriamente, no Estoril. Mais tarde fomos viver para o Fogueteiro. Entretanto, o meu pai abalou de casa e a minha mãe, que era funcionária pública, lá se conseguiu aguentar com os quatro filhos. Agora, com  72 anos, está reformada. Vem até cá de vez em quando. Eu agora só trabalho de manhã, à tarde estou sempre em casa, é muito pertinho daqui. Se quiserem, têm aqui o meu número de telefone, avisem e apareçam.

Friday, June 10, 2011

DAVID

Estou cá há 23 anos. Saí de Lamego, tinha dez. Mas vou com frequência a Portugal. Os meus pais regressaram, estão bem, o meu pai tem uma reforma que ronda os três mil francos suíços, comprou uma quinta, entretem-se com a quinta. A mãe tem um negócio de importação de artigos para eventos sociais, sobretudo para casamentos, vão muitos emigrantes portugueses casar a Portugal, não, não só no Verão, mas mais no Verão, claro. E eu acompanho o negócio. Gosto de montar negócios. E compraram dois apartamentos no Algarve. O meu irmão, é mais velho que eu dois anos, tem duas filhas, casou novo, é importador de vinhos portugueses para aqui e para a Alemanha. O negócio tem-lhe crescido bastante, apesar da pouca presença  de vinhos portugueses na Suíça e na Alemanha.
Quando completei o décimo segundo ano, candidatei-me ao ensino técnico. O ensino técnico aqui é diferente. Os candidatos que passem na admissão vão trabalhar em empresas, dedicando dois dias à escola e três à empresa. Recebem um pequeno salário, cerca de 500 euros, e começam por fazer os serviços mais simples. Estes estágios são apoiados com fundos do governo e, no fim do curso de três anos, os estudantes não têm nenhuma obrigação de permanecer na empresa onde fizeram o estágio. Só podem chumbar uma vez. Eu trabalhei durante três anos num banco, depois transferi-me para um segundo, e agora estou há seis anos noutro. Durante a minha passagem  pelo segundo banco, obtive uma equiparação ao bacharelato concedido pelas universidades, equivalente à licenciatura segundo o "Protocolo de Bolonha", através da frequência de vários cursos relacionados com a gestão bancária, mercados finnceiros, entre outros. Equivalência absoluta. Já mudei duas vezes de emprego porque é a única forma de progredir na carreira. Quem não se muda não sobe. É verdade que o custo de vida é muito elevado na Suíça e o sistema de previdência social não tem nada a ver com o "estado social" em vigor em muitos países da União Europeia. Para a reforma descontamos cerca de 11%, metade o empregador, metade o empregado. É o primeiro pilar, que nunca excede os 2200 francos mensais. Para a contagem do tempo deste primeiro pilar não se incluem os tempos de ausência ao serviço, por desemprego, por exemplo.  O segundo pilar é constituido, individualmente, junto de seguradoras. É um complemento do primeiro e garante um valor proporcional às contribuições feitas. O terceiro pilar corresponde ao que em Portugal são os PPR. Quanto à saúde, não há protecção social como em Portugal, à excepção das pessoas que, estando doentes, não tenham recursos, por estarem desempregadas, por exemplo. Quem trabalha na Suíça é obrigado por lei a comprar um seguro de saúde. É também por essa razão que não há na Suíça, praticamente, imigração clandestina. Como também não é permitida a habitação clandestina, isto é, habitação não legalmente aprovada, é muito difícil encontrar-se alguém a trabalhar na Suíça que não cumpra com as exigências legais que um emprego requer. Habitação social, não há. Mas há apoios concedidos pelo Estado a determinadas organizações que permitem arrendamentos mais baixos do que aqueles que são correntes no mercado. Eu, até agora, estive a beneficiar de uma situação dessas. Mas não são habitações de propriedade plena. São arrendadas. A renda é limitada a uma percentagem dos rendimentos do arrendatário e actualizada consoante a progressão desses rendimentos. De tal modo que, em determinado momento, se a renda ultrapassa os valores praticados no mercado, o arrendatário troca aquela casa por outra com renda mais barata, disponibilizando a casa para outro candidato com menores rendimentos. Quem quer comprar casa própria tem de o fazer com recursos próprios ou emprestados, havendo possibilidade de descontar no IRS o valor dos juros pagos até determinado montante, que é baixo. Não penso que venha a ter uma oportunidade para voltar a Portugal. Mas vou lá frequentes vezes, tanto por razões pessoais, familiares e de negócios, como profissionais. Estou a construir uma casa aqui, e um dia caso-me. Mas não vai ser tão cedo. Tenho uma carreira a consolidar. Até lá, vou namorando ..., namoradas não faltam. Elas dirão o mesmo, claro. Casar pode esperar. 

MEIN NAME IST URS

Guten Tag!
Milagro! schönen Hund ... Milagro.
Mein name ist Urs. 
Rui? Oh!? 
Vamos por aqui... A Cherry é a namorada do Milagro. A Cherry não gosta de mais nenhum. Mas, por aqui, todos gostam do Milagro. Nice dog! Chegaste de Portugal, quando? Ah! Portugal está em dificuldade ...Um! A União Europeia é uma boa ideia, mas é uma boa ideia que não funciona. Juntar alemães com gregos, checos, romenos, búlgaros, italianos ...não funciona. A minha irmã reside na Alemanha e diz-me que lá estão pelos cabelos, já não podem ouvir falar dos gregos. Na Alemanha, trabalha-se, sabes? E na Grécia? Ah! É uma boa ideia que não funciona, a União Europeia. E o euro, pof!, cai. Forte é o franco suíço. E se a Turquia entra, então é o fim... Milagro! Lindo cão! Gosto disto. Gosto desta montanha. Nasci aqui, sabes? Gosto de estar reformao Ah!Ah!Ah! Não há melhor vida. Reformei-me o ano passado, tenho 66 anos, não quero outra vida. Mas trabalhei durante 45 anos. No Instituto Politécnico, no laboratório de análise de materiais. Olha, aquele cabo do teleférico, vim cá várias vezes com os alunos analisar a situação do cabo...Eh! Analisamos a resistência, tudo isso, era o que fazi. Agora estou reformado. Saio com a Cherry, andamos por aqui, umas vezes vamos para um lado, outra vezes, para outro. E trago o Milagro, trago o Milagro duas vezes por semana, Milagro! Nice dog! Toda a gente gosta do Milagro. A Cherry também veio de Espanha, mas, coitada, não sei que lhe fizeram lá, partiram-lhe o pescoço, é por isso que não levanta a cabeça e anda sempre com ela de lado. Mas é uma boa cadela. Só gosta do Milagro, rosna a todos os outros. Baixinho, mas rosna. Com o Milagro, não. Faço motobike, não gostas de motobike? Sempre gostei de motobike. Gosto de viajar. Não, não tivemos filhos. A minha mulher não pode engravidar, de modo que não temos filhos. Mas tenho ajudado muitas crianças... Na Indonésia... Vamos lá com frequência, para acções de preservação do ambiente, da despoluição de águas, de defesa da floresta tropical, ... Ah! Gosto desta floresta! Milagro! Nice dog! A minha muher ainda trabalha, sim. É mais nova dois anos que eu. Reforma-se para o ano. Quando fizer 65. Trabalha na expedição do jornal, de modo que entra às oito da noite e sai às três da manhã. Com que idade é que se reformam em Portugal? Bom, aqui também há quem se reforme mais cedo, mas são raros. Eu também gostaria de me ter reformado mais cedo. Gosto de estar reformado!  Gosto disto! Quando mais novo fazia escalada da montanha. Agora, não. Agora só motobike. Golfe? Gosto do golfe, mas não sei jogar. Uma vez fui a um driving range mas foi um desastre. Não acertei uma. O Golfe é uma coisa para gente rica. O golfe e o ténis. Agora, já está mais em conta. Mas mesmo assim não são desportos para todos. Para todos é escalar a montanha. Um dia destes vamos até lá acima ao cume, a pé?, a pé, pois claro. Tens é de trazer sapatos para a montanha. Esses não resistem. A montanha é isto: árvores, pássaros, ar puro, liberdade ...Cherry! Cherry! Onde é que se meteu a Cherry? Milagro, onde é que ficou a Cherry? Ah! Aí está ela. Isto aqui é o paraíso. Agora vamos por aqui, e lá em baixo tomamos um café. Não? E uma cerveja? Nem uma limonada? Nem uma coca-cola? OK, ok, tomo eu. Moro ali em baixo, estás a ver? Comprei ali um apartamento, depois comprei o outro ao lado, e juntei-os. Seiscentos mil francos há seis anos. Se fosse hoje, custariam mais de um milhão. Está tudo muito caro na Suíça. Comprei em bom tempo. Tinha umas economias, apliquei-as nuns fundos por sugestão do tipo lá do banco, a seguir ao 11 de Setembro, quando derrubaram as twin towers, vieram também os fundos por ali abaixo. Ficaram-me as poupanças reduzidas a menos de metade, e eu sem culpa nenhuma do que aconteceu. Fui ao banco, vendi tudo, e comprei os dois apartamentos. Tenho cinco salas e duas cozinhas, ah! ah! ah!, e um grande terraço voltado para a montanha. De manhã, por volta das cinco, abro o olho porque o Sol me bate na cara. Acordo feliz!
A ouvir os pássaros, a maioria são melros, com o Sol a bater-me na cara. Para mim, não há mais fundos nem fundilhos, os tipos dos bancos são todos uns corruptos. Milagro! Nice dog! Trago-lhe sempre estas cookies. Lambe-se todo. É guloso, o Milagro. Cherry! Toma Cherry. Também há cookies par ti, Cherry, há sempre. Coitada, obrigada a olhar sempre para o chão, o pescoço ao lado.
Mas é uma boa cadela. Estas cerejeiras? Sim, são dessa casa. Não as apanham, não, mas não sei porquê. Estão caras as cerejas. A dez francos o quilo, pelo menos. Podemos apanhar? Por que não? Quando era um rapazote costumava roubar cerejas. Eu, e os da minha idade. Era um hoby. Roubávamos cerejas, maçãs, pêras, o que havia  por aí. Esta quinta, aqui, produz tudo bio: ovos, leite, yogurte, queijo, hortaliças, frutas, ... têm ali, estás a ver, aquela lojinha onde podemos comprar o que eles produzem aqui. Já tenho cá comprado. Pois, os coelhos alimentam-se da erva, nada de químicos, tudo bio. Adoro isto. Mas gosto de viajar. Na Indonésia temos muitos amigos. Um dos nossos programas é a preservação dos orangotangos. Não, nunca estive em Portugal. Já estive em Espanha, Barcelona. Mas não gosto da areia. Milagro! Cherry! Onde é que estás Cherry? Há muita gente a viver com dificuldade aqui. Pessoas que trabalham oito horas e mais por dia mas vivem com muitas dificuldades. Às vezes digo aos meus amigos estrangeiros: vocês pensam que todos os suíços são ricos, mas não são. Há muita gente que tem dificuldade em pagar a renda da casa. E, muitas vezes, tenho vergonha de ser suíço. porque há muita corrupção na banca. A Suíça dá abrigo  muito malandro. Há muito dinheiro sujo na Suíça. A esmagadora maioria dos suíços não tem nada a ver com esse dinheiro. É cada vez maior o número de pobres e são cada vez maiores as fortunas dos mais
muito ricos. Eu não tenho grandes razões de queixa. Tenho meu apartamento, o Sol a entrar-me às cinco pela janela, os melros a tocar música ... a melhor música é a dos pássaros. Não há melho música que  música dos pássaros. Qual Mozart, qual Beethoven, qual Schubert, qual quê! Melhor que todos eles são os meus vizinhos melros. Cherry!? Milagro, onde é que ficou a Cherry? Criticavam o comunismo, o capitalismo é o que se vê: uns poucos com mutíssimo, outros com pouco, uma grande maioria sem nada. Aleixo? Nunca ouvi falar. Eu sou pelo social, entendes? Deveria haver melhor distribuição da riquesa. Terça-feira, subimos a montanha. Valeu?