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Wednesday, August 24, 2011

Sunday, January 27, 2008

SÃO BORLAS



Metade do público abandonou a ópera de Emmanuel Nunes na estreia no Teatro de São Carlos
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1317852&idCanal=14
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O Teatro de São Carlos estava cheio às 20h, no início da estreia mundial da ópera de Emmanuel Nunes. Ao intervalo, duas horas depois, as desistências eram muitas. Cerca de metade do público tinha abandonado a sala. (...) As expectativas à volta desta produção eram muitas. Encomenda ainda da direcção de Paolo Pinamonti, Das Märchen (O Conto) passou por algumas peripécias até ao dia da estreia, incluindo vários adiamentos e algumas discussões que vieram a público entre o compositor e o director do São Carlos. Lembrar este contexto e sobretudo o grande investimento institucional nesta ópera é importante para pensar o objecto estético apresentado na sexta-feira. Até porque Das Märchen pode ser vista, entre outras coisas, como uma reflexão (artística) sobre a arte e a sua autonomia. No prólogo que dá início ao espectáculo, fala-se da faculdade da "imaginação", aquela sem a qual a arte não existe. "Ela não se prende a nenhum objecto", diz o libreto. "Ela não faz quaisquer planos, não escolhe nenhum caminho", ouve-se depois. Quem escreveu estas palavras foi Goethe (1749-1832), o autor do conto original em que se baseia a ópera Das Märchen, e uma das figuras centrais do primeiro romantismo alemão. Goethe e Schiller desenharam, desde fins do século XVIII, os contornos da ideia romântica de uma arte autónoma e definiram, nesse processo, a posição do artista, as condições do "livre jogo da imaginação" e as qualidades do génio criador.Mas já não estamos no fim do século XVIII. E é natural que esta enigmática (para não dizer esotérica) ópera de Emmanuel Nunes cause alguma perplexidade. A afirmação da autonomia absoluta do artista e da sua arte independente (no modelo a que alguns chamaram "arte pela arte") em tudo é contradita pela própria natureza da produção operática, e ainda mais neste caso de Das Märchen, onde há música, dança, teatro, projecção vídeo, electrónica ao vivo, cenografia, luz, etc. Embora o nome de autor tenha o peso que se sabe, o criador de Das Märchen não é só Emmanuel Nunes. E a arte na principal sala de ópera portuguesa não está sujeita apenas ao "livre jogo da imaginação dos artistas". Depende do Estado, de patrocinadores que mexem em muito dinheiro (por exemplo o BCP) e de várias instituições culturais. Dirão que estou a fugir ao assunto. Não: o assunto também é este.O problema de Das Märchen não é ser muito grande e ter música difícil para os ouvidos. O problema não é o número de horas que dura. O que há é talvez um excesso de elementos simbólicos, de coisas para olhar, para ouvir, para ler. Tudo na língua germânica, talvez para estarmos mais perto do idealismo alemão, mas transfigurado por uma encenação pós-moderna, em que o excesso simbólico chega a ser disparatado. Karoline Gruber dispara mesmo em todas as direcções, e faz uma encenação infinita nas suas múltiplas relações internas, tal como o intrincado texto de Goethe, jogando com figuras míticas, magias, círculos, terra, fogo, ouro (impossível não nos lembrarmos de Wagner). Brincadeira ou megalomania?O problema da encenação é que não sabe bem o que fazer daquilo tudo. Os corpos estão sempre em movimento (uma coreografia neo-conservadora anda ali pelo meio um pouco à nora), as personagens duplicam-se, as projecções vídeo criam imagens sobre imagens sobre imagens. O resultado mais uma vez é contraditório: tudo se mexe mas há uma sensação de que tudo é estático. Tudo é movimento permanente (como num rio), mas (quase) nada nos prende. Na música, apesar de muito bem interpretada pelo Remix com elementos da Orquestra Sinfónica Portuguesa e alguns bons cantores, acontece o mesmo: há milhões de acontecimentos, de timbres e de jogos rítmicos, mas tudo parece ficar no mesmo sítio e tudo parece equivaler-se. É uma música palavrosa, que fala sem parar (bavarder, em francês, é a melhor palavra para a descrever). Até aí tudo bem. Mas Das Märchen, de tanto querer ser a arte pura que não pode ser, entra numa contradição insolúvel, e opta por fechar-se ao mundo. A encenação tenta dar, na parte final, um salto para outro lugar, depois de uma espécie de "catástrofe". Mas já era demasiado tarde. E fica só isso - a ideia de que não há nada a fazer. É assim e pronto.E quem vê? E quem ouve? Também não pode pensar a ópera a que assiste, porque esta arte se diz impensável. O espectador não pode pegar em nada daquilo que vê e ouve, porque esta arte é arte pura - e querer dar-lhe utilidade é corrompê-la. Podemos então apenas pasmar? O que fica de Das Märchen é uma perplexidade. Ela leva ao extremo as contradições desta arte que se quer pura (e que afinal é tão impura) e os problemas da função da ópera nos nossos tempos, enquanto representação social do poder.Das Marchen De Emmanuel Nunes Orquestra Sinfónica Portuguesa Remix Ensemble Coro do Teatro de São Carlos Peter Rundel, direcção musical Karoline Gruber, encenação.
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Cerca da uma da tarde ouvi na Antena 2 que 2/3 dos espectadores tinham abandonado a sala no segundo intervalo; depois, muitos outros foram saindo a pouco e pouco. Os que ficaram até à uma da manhã bateram palmas por obrigação da claque borlista. Aliás, poucos devem ter pago bilhete, se é que alguém pagou.
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Quem pagou foi o Orçamento Geral do Estado, isto é, eu, tu, ele, nós, vós. Eles foram lá porque tinham bilhetes oferecidos mas vieram embora porque já tinham dado ar às indumentárias, que é para isso, sobretudo, que servem os intervalos em São Carlos.

Saturday, December 22, 2007




Otelo - Ópera de Kirov
Kennedy Center - Dezembro 2007
Direcção musical e artística de Valery Gergiev

Wednesday, December 19, 2007

A RAÍNHA DE ESPADAS




























Valery Gergiev, dirigindo a Orquestra de Kirov na Ópera "The Queen of Spades" no Kennedy Center -
Dezembro 2007

A CANUDA

Renúncia!!!!!, berrou o Pureza, nem parecia o Pureza, ao mesmo tempo que se levantava e dava um murro na mesa. Este gajo renunciou a espadas!, voltou o Pureza a berrar e a apontar o adversário à direita. Uma renúncia, ou é distracção do jogador ou batota, e, sendo batota, na sueca, segundos os códigos é falta para pena máxima.

O Pureza é um homem pacato, na casa dos quarenta, mais para cima que para baixo, cumpridor, sem vícios, o que vai sendo caso raro mesmo se falta o dinheiro. Vive sozinho, a mãe tomava conta dele enquanto viveu, os parentes próximos ou morreram ou emigraram. Alto e entroncado, fala sempre baixo e pausadamente como convém a quem trabalha com correntes eléctricas. Aquele berro do Pureza foi, portanto, uma originalidade nele.

Só aos fins-de-semana, e nem todos, porque se está bom tempo vai pescar, o Pureza vai até ao outro lado da rua beber um café e ler o jornal, incluindo os pequenos anúncios e a necrologia. De vez em quando, deixa-se ficar por ali até mais tarde, compra uma sanduíche e bebe um copo, e a meio da tarde, o mais tardar, volta para casa, descuidado. Quarentão e solteirão, que sortes tu tens ladrão!

O ano passado, véspera de Natal, o Pureza foi até ao café como de costume. Uma bica senhor Arnaldino, e pôs-se a ler o jornal, oferta da casa.

O Arnaldino aproveita a época das festas para melhorar o saldo de caixa e põe à venda tralha natalícia made in China que vende a quem tem pouco para gastar ou deixou as compras de prendas para a última hora. O Pureza olha enjoado todo aquele frenezim, a véspera de Natal, se ele mandasse, passava para Agosto que é quando está bom tempo e o Pureza vai pescar. O Natal para o Pureza, só não vê quem é torto de vistas ou não percebe nada da humanidade, é a pior época do ano. Faz frio, chove, no café é aquela trapalhada que se vê, os putos a berrar, as mães a atropelarem-se no meio da mercadoria do Arnaldino, o Arnaldino com um olho no burro e outro no cigano sem atenções para a clientela certa, como é que pode um cidadão ler o jornal descansado, beber a bica sem que um empurrão imprevisto da clientela aluada não lhe mande a bica pelos ares, ou conseguir que o Arnaldino lhe traga a sanduíche do costume?

Estava o Pureza a revoltar-se a sério por dentro quando entram no café dois rapazes amigos que costumam parar por ali, vinha com eles o Paulino. Este Paulino deu à costa naqueles sítios há uns vinte e tal anos, de mota a derrapar e a fazer fumo em gincanas admiráveis. Trabalhava na Câmara, ao fim de meia dúzia de rondas já tinha a Canuda comprometida.

A Canuda é a Agostina, Tina para familiares, amigos, e toda a gente pela frente. Por trás, era a Agostina Canuda, ou simplesmente Canuda, filha única da Canuda, neta da Canuda, bisneta da Canuda, Canuda até onde a árvore genealógica da Agostina era visível. As Canudas eram vizinhas dos Purezas, e a mãe do Pureza, sem surpresa, quando viu a Tina embarcada só não morreu de desgosto porque as coisas nem sempre acontecem assim tão depressa. Mas meteu-se na concha com o filho e entre as famílias vizinhas o muro foi rebocado para garantir maior privacidade a partir daí. Casados, Agostina e Paulino ficaram a viver com os pais da Tina. Com os Purezas passou a ser bom dia, boa tarde, cada vez em tom mais baixo, talvez por isso o Pureza falava sempre para dentro.

Quando uns anos mais tarde o Paulino saiu de casa por troca com outra e deixou a Canuda e o filho, nem a mãe da Pureza nem os pais da Canuda eram vivos. O muro entre os sobreviventes embrulhou ainda mais a solidão dos dois. O Pureza saía de madrugada e regressava já noite, a Tina vestiu luto pelos pais e manteve-o pela deserção do marido. De preto vestida, para os jogadores de sueca no café do Arnaldino, a Raínha de Espadas é a Canuda.

Olha o Pureza por cá! Bons olhos te vejam, homem! É hoje que bebes um copo com a malta ou nem na véspera do Natal quebras o galho? Com estas e outras o Pureza cedeu e bebeu. E quando o convidaram para completar a mesa da sueca não tinha argumentos nem resistência para dizer que não.

Na escolha de parceiros não lhe calhou o Paulino para par, e ainda bem, nunca tinham tido qualquer desencontro mas toda a gente sabia que o Paulino tinha apanhado a Tina ao Pureza. Baralhadas as cartas, coube a vez ao Pureza de começar a dar, trunfo espadas, o terno à vista. O Pureza tinha um bom jogo, nada menos que quase toda a família real em casa, só lhe faltava a Canuda. Para tentar uma limpa o Pureza começa por destrunfar. À terceira jogada já deviam ficar fora todas as espadas segundo contas que qualquer um, mesmo inábil, pode fazer. Mas não.

Nesta altura passa-lhe o Arnaldino ao lado e o Pureza pede-lhe um canivete para cortar a sanduíche que ficara a meio por causa da sueca.

O Pureza, corta sanduíche e mastiga um naco que lhe tapa a boca, e puxa pelo último trunfo que tinha, assistiram todos menos o Paulino que se baldou em ouros. Ou havia renúncia ou o Pureza teria bebido demais. Considerou esta hipótese e proseguiu o jogo. A limpa estava garantida, e na penúltima vasa o Paulino joga a Canuda numa puxada de paus.

Renúncia!!!, berrou o Pureza! e ao mesmo tempo tenta demonstrar porquê. Nega-lhe o Paulino as cartas e o Pureza berra de novo: Este gajo renunciou a espadas! Com a Canuda, acrescentou quando com o canivete do Arnaldino já rasgava de alto a baixo o lado esquerdo da cara do Paulino.

Monday, December 10, 2007

ME(R)CENATO - 2

Volto ainda ao tema do me(r) cenato exclusivo em São Carlos.
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Depois de amanhã juntar-se-ão em traje de gala os convidados do Millennium para ouvir o Rigoletto nos intervalos dos intervalos de comunhões e excomunhões sociais.
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Nenhum deles, seguramente, é apologista da vegetação à sombra do Estado. Nenhum teria dificuldades para comprar bilhete a preço da bilheteira (afinal, apenas 16% dos custos totais) se a sua apetência pela ópera o justificasse. Mas todos vão desfrutar do subsídio anual (não menos que 68% dos custos de funcionamento e de produção dos espectáculos do São Carlos) que nos esportula o Estado para assegurar estas borlas.
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E nenhum deles se confronta com a afronta que fazem à esmagadora maioria dos contribuintes portugueses que não sabem sequer onde fica São Carlos.

Saturday, December 08, 2007

ME(R)CENATO


Soube, via Lobi, que o Millennium reservou para amigos e conhecidos a Récita de Gala no São Carlos do "Rigoletto":
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Cessar-fogo
Abrindo a temporada lírica do Teatro Nacional de São Carlos, “Rigoletto” vai estar em cena entre os dias 10 e 21 de Dezembro, sendo que o dia 12 está reservado para a Récita de Gala do mecenas Millennium BCP. Ou seja, no dia 12, o “circo” vai à ópera.

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Entretanto, recebi dos meus Amigos M.João e L.Machado, um e-mail dando-me conta que o espectáculo é "muito bom (e que) há que aproveitar enquanto perduram as contradições que o R. aponta para a exploração desta magnífica casa de espectáculos e de outras. (...) a propósito: Será possível num país com a dimensão do nosso outra alternativa que não seja o Estado a suportar uma parte substancial do custo? Ou será melhor fechar?
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Caros Amigos,
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A vossa questão é tão recorrente que foi tema de um dos episódios da inesquecível séria "Yes, Minister" e "Yes, Prime Minister", não sei se os meus Caros Amigos se recordam.

Com uma diferença: No caso da série britânica, o que era posto em causa não era um Me(r) cenas Único mas a razoabilidade de o povão sustentar um espectáculo que só uma reduzida elite desfruta. E, numa perspectiva de esquerda genuína, isto é não caviar, a questão é muito pertinente. Acho eu, quando vejo, com preocupação, os meus Amigos a ultrapassarem-me pela direita.
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Mas não é esse ponto que mais contesto. Se São Carlos fosse obrigado a governar-se da bilheteira não poderia abrir as portas. E, por esse lado, concedo, não convencido.
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No que não concedo é no monopólio concedido ao Millennium e nas condições que ao Millennium são concedidas. Nada justifica esse monopólio, nada justifica as contrapartidas que usufrui. Trata-se de um contrato leonino que só os mansos costumes portugueses consentem.
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Mecenas é aquela pessoa (e não aquela empresa, porque com o dinheiro dos outros é fácil pingir de mecenas) que destina uma parte da sua fortuna ao fomento das artes ou das ciências, sem reciprocidades de qualquer espécie, fiscais inclusivé, mas apenas a gratidão dos seus concidadãos ou benificiários.
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Me(R) cenas é aquele que obtém favores comerciais, fiscais, ou de outra natureza qualquer, de uma entidade cultural ou científica, pagando para o efeito uma quantia que pode estar aquem das contrapartidas.
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É, do meu ponto de vista, o último caso, o caso do Millennium em São Carlos.

Thursday, March 29, 2007

"DIE WALKURE"

Os deuses inventados pelo homem à sua imagem e semelhança reproduzem os limites dos criadores; só a Natureza na sua incomensurável grandeza transcende o homem, uma infinitamente pequena parte dela.

Wednesday, June 21, 2006

O OURO DO RATO

O OURO DO RATO

2ª. PARTE


De o PÚBLICO de 2006-06-21:

SÃO CARLOS - … O orçamento da próxima temporada é de cerca de 16 milhões de euros, correspondendo 14 milhões ao investimento do Ministério da Cultura, um milhão ao Millennium BCP (mecenas exclusivo) e 1.027.788 de receitas próprias. A ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, sublinhou a aposta forte do ministério no Teatro São Carlos, que teve nesta temporada um aumento de 3,5 milhões de euros, e anunciou a conversão em breve do teatro em empresa pública.

Não sei se os bilhetes atribuídos, ou requisitados, ou cativados, ou reservados, pelo BCP, para brindar os amigos, são pagos aos preços de bilheteira ou supõem-se pagos em contrapartida da sua condição de “mecenas exclusivo”. Mas mesmo que se admita a hipótese de que os bilhetes adquiridos pelo BCP são pagos ao preço de bilheteira, e ao BCP apenas é concedido o privilégio de poder reservar, com prioridade sobre os espectadores comuns, um certo número de lugares, o preço pago pelo “mecenas exclusivo” não cobre mais do que 12% do custo dos espectáculos realizados em São Carlos.

Acresce que alguns dos amigos do BCP recebem os bilhetes oferecidos mas, ou por que o espectáculo não lhes agrada ou porque têm outras prioridades, não aparecem. Quando isto acontece, e acontece muitas vezes, não só em São Carlos mas também em outros espectáculos financiados pelo Orçamento Geral do Estado, o espectador comum, que paga impostos com que se suportam os 88% custos restantes, vê, frequentemente, negada a possibilidade de assistir a espectáculos, “porque se esgotaram os bilhetes”, mas as cadeiras ficam vazias à ordem de quem pagou por elas, no máximo, a módica quantia de 12% do custo.

O “mecenato”, neste caso e em muitos outros, não é mais do que uma forma encapotada de publicidade relativamente em conta, a favor de quem faz de conta que é mecenas. E ainda por cima, com exclusividade.
Poder-nos-íamos ainda interrogar acerca da legitimidade do pagamento, pelos portugueses, de 16 milhões de euros para que em SÃO CARLOS uns poucos assistam a espectáculos que não lhes custam mais do 6% do preço de custo. Mas correríamos o risco de nos apodarem de demagogia e vistas curtas.
Ou de fanatismo do déficit orçamental.

Thursday, June 08, 2006

O OURO DO RATO


E se a administração do serviço público de meteorologia decidir comprar um elefante com a verba que estava destinada a novos computadores? A pergunta não é original. Foi feita há mais de dois anos num encontro ibérico de tribunais de contas por um juiz-conselheiro da entidade portuguesa, Lídio de Magalhães. Neste exemplo, a administração não poderia ser financeiramente responsabilizada, á luz das regras em vigor em Portugal. Porque, como diz a ciência, teria havido uma “contraprestação efectiva”-ou seja, o elefante existia e fazia parte do património do referido serviço público. E tinha sido comprado de acordo com as boas regras burocráticas…O caso mais recente de que se tem conhecimento público é o dos caças F16 que foram comprados durante o primeiro mandato de António Guterres…” in Público de 2006-06-06, Paulo Ferreira.

O autor refere outras situações com configuração semelhante, de entre as quais se destaca ainda o “driving range” das Amoreiras, condenado a perpetuar a nossa imbecilidade colectiva.

Não fala o autor, mas podia falar, de outros elefantes: da estação ferroviária do Pinhal Novo, por exemplo. Disse-me, quem conhece bem o assunto, que aquela estação está projectada para um aumento populacional que colocaria o Pinhal Novo ao nível do Parque das Nações!

Pois é. A inimputabilidade é o maior pecado do Estado.

O Estado é inimputável porque, em nome dele, são cometidos, sem qualquer penalidade para os agentes incumbidos, os maiores desmandos. A compra de elefantes é o pão-nosso com que se alimentam as cumplicidades que sugam o Estado.

No PÚBLICO de anteontem, 7/6, pode ler-se:

“Aviões e hélis são vendidos porque estão em excesso. Ex-CEMGFA, general Espírito Santo diz que compra da segunda esquadra de F16 “já nessa altura (da compra) não fazia sentido, porque era evidente, desde o início, que não havia dinheiro para a manter”. “Em 1999, recorda, havia apenas 13 pilotos de F16 e era previsível a dificuldade, que hoje se mantém, de arranjar pilotos para as duas esquadras”

O Espírito Santo tem destas coisas e é, por definição, inimputável. De mais a mais, general.

No mesmo jornal, no mesmo dia, podia ler-se:

Câmara abandona projecto de Frank Gehry para o Parque Mayer. Arquitecto já recebeu 2,5 milhões de Euros “

O actual Presidente, que agora discorda do projecto megalómano para um beco sem saída, era o Vice-Presidente que concordou.

Se tivesse comprado o tal elefante, pelo menos teríamos um novo paquiderme no Zoo. Assim, o que é temos?

Há dias alguns comentadores rejubilavam com a “teatralidade” do Ouro do Reno, em cena no São Carlos. Ao director do Teatro foi dada rédea bastante para virar o São Carlos de cangalhos. Para uma encenação à medida de Wagner, ao que dizem, e aplaudiram. Em nenhum outro teatro da Europa e dos Estados Unidos haveria tanto dinheiro para satisfazer os caprichos do encenador convidado. Mas, em Portugal, há.

O calor era insuportável na plateia improvisada e os cantores cantaram grande parte do tempo de costas voltadas.

O final teve direito a um foguetão à moda do Moulin Rouge ou do Folies Bergéres.
Pour épater le bourgeois? Não. Para levar a Reboleira a São Carlos, segundo o Director.

Por estes dias, e para comemorar os centenários de Mozart e o centenário de Shostakovish, o Programa 2 da RDP fez deslocar pelo mundo, pelo menos dois locutores e não se sabe quantos técnicos, para fazerem emissões que primordialmente são, ou deveriam ser, leituras de CDs em Lisboa. Ontem, o locutor em São Petersburgo divertia-se a dialogar com os seus colegas em Lisboa e Viena de Áustria, e entrevistava uma cantora, em italiano, pelo telefone. Mais tarde caiu a linha, a emissão continuou de Viena de Áustria. A locutora na capital austríaca estava entusiasmadíssima, de manhã e à tarde, com o que via por todo o lado: Mozarts de chocolate, pianinhos de chocolate, um cartão vestido à Mozart para meter a cabaça e tirar o retrato…coisas assim, verdadeiramente culturais.

Nos Estados Unidos, por exemplo, tanta extravagância à custa dos impostos sobre os contribuintes seria impensável.

Mas os Estados Unidos são ricos, não podem dar-se a estes pequenos luxos.

O que há, afinal de contas, comum à grandiosidade da estação ferroviária do Pinhal Novo, a compra e venda de F16, o desperdício de 2,5 milhões de euros com um projecto frustrado para o Parque Mayer, a encenação faraónica do Ouro do Reno, as andanças dos “artistas” da Antena 2 pelo mundo e arredores para passar música clássica, etc, etc, etc.?

O Ouro do Rato!