Wednesday, August 24, 2011
Tuesday, March 04, 2008
Sunday, January 27, 2008
SÃO BORLAS

Metade do público abandonou a ópera de Emmanuel Nunes na estreia no Teatro de São Carlos
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1317852&idCanal=14
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Wednesday, December 19, 2007
A RAÍNHA DE ESPADAS


Renúncia!!!!!, berrou o Pureza, nem parecia o Pureza, ao mesmo tempo que se levantava e dava um murro na mesa. Este gajo renunciou a espadas!, voltou o Pureza a berrar e a apontar o adversário à direita. Uma renúncia, ou é distracção do jogador ou batota, e, sendo batota, na sueca, segundos os códigos é falta para pena máxima.
O Pureza é um homem pacato, na casa dos quarenta, mais para cima que para baixo, cumpridor, sem vícios, o que vai sendo caso raro mesmo se falta o dinheiro. Vive sozinho, a mãe tomava conta dele enquanto viveu, os parentes próximos ou morreram ou emigraram. Alto e entroncado, fala sempre baixo e pausadamente como convém a quem trabalha com correntes eléctricas. Aquele berro do Pureza foi, portanto, uma originalidade nele.
Só aos fins-de-semana, e nem todos, porque se está bom tempo vai pescar, o Pureza vai até ao outro lado da rua beber um café e ler o jornal, incluindo os pequenos anúncios e a necrologia. De vez em quando, deixa-se ficar por ali até mais tarde, compra uma sanduíche e bebe um copo, e a meio da tarde, o mais tardar, volta para casa, descuidado. Quarentão e solteirão, que sortes tu tens ladrão!
O ano passado, véspera de Natal, o Pureza foi até ao café como de costume. Uma bica senhor Arnaldino, e pôs-se a ler o jornal, oferta da casa.
O Arnaldino aproveita a época das festas para melhorar o saldo de caixa e põe à venda tralha natalícia made in China que vende a quem tem pouco para gastar ou deixou as compras de prendas para a última hora. O Pureza olha enjoado todo aquele frenezim, a véspera de Natal, se ele mandasse, passava para Agosto que é quando está bom tempo e o Pureza vai pescar. O Natal para o Pureza, só não vê quem é torto de vistas ou não percebe nada da humanidade, é a pior época do ano. Faz frio, chove, no café é aquela trapalhada que se vê, os putos a berrar, as mães a atropelarem-se no meio da mercadoria do Arnaldino, o Arnaldino com um olho no burro e outro no cigano sem atenções para a clientela certa, como é que pode um cidadão ler o jornal descansado, beber a bica sem que um empurrão imprevisto da clientela aluada não lhe mande a bica pelos ares, ou conseguir que o Arnaldino lhe traga a sanduíche do costume?
Estava o Pureza a revoltar-se a sério por dentro quando entram no café dois rapazes amigos que costumam parar por ali, vinha com eles o Paulino. Este Paulino deu à costa naqueles sítios há uns vinte e tal anos, de mota a derrapar e a fazer fumo em gincanas admiráveis. Trabalhava na Câmara, ao fim de meia dúzia de rondas já tinha a Canuda comprometida.
A Canuda é a Agostina, Tina para familiares, amigos, e toda a gente pela frente. Por trás, era a Agostina Canuda, ou simplesmente Canuda, filha única da Canuda, neta da Canuda, bisneta da Canuda, Canuda até onde a árvore genealógica da Agostina era visível. As Canudas eram vizinhas dos Purezas, e a mãe do Pureza, sem surpresa, quando viu a Tina embarcada só não morreu de desgosto porque as coisas nem sempre acontecem assim tão depressa. Mas meteu-se na concha com o filho e entre as famílias vizinhas o muro foi rebocado para garantir maior privacidade a partir daí. Casados, Agostina e Paulino ficaram a viver com os pais da Tina. Com os Purezas passou a ser bom dia, boa tarde, cada vez em tom mais baixo, talvez por isso o Pureza falava sempre para dentro.
Quando uns anos mais tarde o Paulino saiu de casa por troca com outra e deixou a Canuda e o filho, nem a mãe da Pureza nem os pais da Canuda eram vivos. O muro entre os sobreviventes embrulhou ainda mais a solidão dos dois. O Pureza saía de madrugada e regressava já noite, a Tina vestiu luto pelos pais e manteve-o pela deserção do marido. De preto vestida, para os jogadores de sueca no café do Arnaldino, a Raínha de Espadas é a Canuda.
Olha o Pureza por cá! Bons olhos te vejam, homem! É hoje que bebes um copo com a malta ou nem na véspera do Natal quebras o galho? Com estas e outras o Pureza cedeu e bebeu. E quando o convidaram para completar a mesa da sueca não tinha argumentos nem resistência para dizer que não.
Na escolha de parceiros não lhe calhou o Paulino para par, e ainda bem, nunca tinham tido qualquer desencontro mas toda a gente sabia que o Paulino tinha apanhado a Tina ao Pureza. Baralhadas as cartas, coube a vez ao Pureza de começar a dar, trunfo espadas, o terno à vista. O Pureza tinha um bom jogo, nada menos que quase toda a família real em casa, só lhe faltava a Canuda. Para tentar uma limpa o Pureza começa por destrunfar. À terceira jogada já deviam ficar fora todas as espadas segundo contas que qualquer um, mesmo inábil, pode fazer. Mas não.
Nesta altura passa-lhe o Arnaldino ao lado e o Pureza pede-lhe um canivete para cortar a sanduíche que ficara a meio por causa da sueca.
O Pureza, corta sanduíche e mastiga um naco que lhe tapa a boca, e puxa pelo último trunfo que tinha, assistiram todos menos o Paulino que se baldou em ouros. Ou havia renúncia ou o Pureza teria bebido demais. Considerou esta hipótese e proseguiu o jogo. A limpa estava garantida, e na penúltima vasa o Paulino joga a Canuda numa puxada de paus.
Renúncia!!!, berrou o Pureza! e ao mesmo tempo tenta demonstrar porquê. Nega-lhe o Paulino as cartas e o Pureza berra de novo: Este gajo renunciou a espadas! Com a Canuda, acrescentou quando com o canivete do Arnaldino já rasgava de alto a baixo o lado esquerdo da cara do Paulino.
Monday, December 10, 2007
ME(R)CENATO - 2
Saturday, December 08, 2007
ME(R)CENATO

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Cessar-fogo
Abrindo a temporada lírica do Teatro Nacional de São Carlos, “Rigoletto” vai estar em cena entre os dias 10 e 21 de Dezembro, sendo que o dia 12 está reservado para a Récita de Gala do mecenas Millennium BCP. Ou seja, no dia 12, o “circo” vai à ópera.
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Thursday, March 29, 2007
"DIE WALKURE"
Wednesday, June 21, 2006
O OURO DO RATO
2ª. PARTE
De o PÚBLICO de 2006-06-21:
SÃO CARLOS - … O orçamento da próxima temporada é de cerca de 16 milhões de euros, correspondendo 14 milhões ao investimento do Ministério da Cultura, um milhão ao Millennium BCP (mecenas exclusivo) e 1.027.788 de receitas próprias. A ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, sublinhou a aposta forte do ministério no Teatro São Carlos, que teve nesta temporada um aumento de 3,5 milhões de euros, e anunciou a conversão em breve do teatro em empresa pública.
Não sei se os bilhetes atribuídos, ou requisitados, ou cativados, ou reservados, pelo BCP, para brindar os amigos, são pagos aos preços de bilheteira ou supõem-se pagos em contrapartida da sua condição de “mecenas exclusivo”. Mas mesmo que se admita a hipótese de que os bilhetes adquiridos pelo BCP são pagos ao preço de bilheteira, e ao BCP apenas é concedido o privilégio de poder reservar, com prioridade sobre os espectadores comuns, um certo número de lugares, o preço pago pelo “mecenas exclusivo” não cobre mais do que 12% do custo dos espectáculos realizados em São Carlos.
Acresce que alguns dos amigos do BCP recebem os bilhetes oferecidos mas, ou por que o espectáculo não lhes agrada ou porque têm outras prioridades, não aparecem. Quando isto acontece, e acontece muitas vezes, não só em São Carlos mas também em outros espectáculos financiados pelo Orçamento Geral do Estado, o espectador comum, que paga impostos com que se suportam os 88% custos restantes, vê, frequentemente, negada a possibilidade de assistir a espectáculos, “porque se esgotaram os bilhetes”, mas as cadeiras ficam vazias à ordem de quem pagou por elas, no máximo, a módica quantia de 12% do custo.
O “mecenato”, neste caso e em muitos outros, não é mais do que uma forma encapotada de publicidade relativamente em conta, a favor de quem faz de conta que é mecenas. E ainda por cima, com exclusividade.
Thursday, June 08, 2006
O OURO DO RATO
E se a administração do serviço público de meteorologia decidir comprar um elefante com a verba que estava destinada a novos computadores? A pergunta não é original. Foi feita há mais de dois anos num encontro ibérico de tribunais de contas por um juiz-conselheiro da entidade portuguesa, Lídio de Magalhães. Neste exemplo, a administração não poderia ser financeiramente responsabilizada, á luz das regras em vigor em Portugal. Porque, como diz a ciência, teria havido uma “contraprestação efectiva”-ou seja, o elefante existia e fazia parte do património do referido serviço público. E tinha sido comprado de acordo com as boas regras burocráticas…O caso mais recente de que se tem conhecimento público é o dos caças F16 que foram comprados durante o primeiro mandato de António Guterres…” in Público de 2006-06-06, Paulo Ferreira.
O autor refere outras situações com configuração semelhante, de entre as quais se destaca ainda o “driving range” das Amoreiras, condenado a perpetuar a nossa imbecilidade colectiva.
Não fala o autor, mas podia falar, de outros elefantes: da estação ferroviária do Pinhal Novo, por exemplo. Disse-me, quem conhece bem o assunto, que aquela estação está projectada para um aumento populacional que colocaria o Pinhal Novo ao nível do Parque das Nações!
Pois é. A inimputabilidade é o maior pecado do Estado.
O Estado é inimputável porque, em nome dele, são cometidos, sem qualquer penalidade para os agentes incumbidos, os maiores desmandos. A compra de elefantes é o pão-nosso com que se alimentam as cumplicidades que sugam o Estado.
No PÚBLICO de anteontem, 7/6, pode ler-se:
“Aviões e hélis são vendidos porque estão em excesso. Ex-CEMGFA, general Espírito Santo diz que compra da segunda esquadra de F16 “já nessa altura (da compra) não fazia sentido, porque era evidente, desde o início, que não havia dinheiro para a manter”. “Em 1999, recorda, havia apenas 13 pilotos de F16 e era previsível a dificuldade, que hoje se mantém, de arranjar pilotos para as duas esquadras”
O Espírito Santo tem destas coisas e é, por definição, inimputável. De mais a mais, general.
No mesmo jornal, no mesmo dia, podia ler-se:
“Câmara abandona projecto de Frank Gehry para o Parque Mayer. Arquitecto já recebeu 2,5 milhões de Euros “
O actual Presidente, que agora discorda do projecto megalómano para um beco sem saída, era o Vice-Presidente que concordou.
Se tivesse comprado o tal elefante, pelo menos teríamos um novo paquiderme no Zoo. Assim, o que é temos?
Há dias alguns comentadores rejubilavam com a “teatralidade” do Ouro do Reno, em cena no São Carlos. Ao director do Teatro foi dada rédea bastante para virar o São Carlos de cangalhos. Para uma encenação à medida de Wagner, ao que dizem, e aplaudiram. Em nenhum outro teatro da Europa e dos Estados Unidos haveria tanto dinheiro para satisfazer os caprichos do encenador convidado. Mas, em Portugal, há.
O calor era insuportável na plateia improvisada e os cantores cantaram grande parte do tempo de costas voltadas.
O final teve direito a um foguetão à moda do Moulin Rouge ou do Folies Bergéres.
Pour épater le bourgeois? Não. Para levar a Reboleira a São Carlos, segundo o Director.
Por estes dias, e para comemorar os centenários de Mozart e o centenário de Shostakovish, o Programa 2 da RDP fez deslocar pelo mundo, pelo menos dois locutores e não se sabe quantos técnicos, para fazerem emissões que primordialmente são, ou deveriam ser, leituras de CDs em Lisboa. Ontem, o locutor em São Petersburgo divertia-se a dialogar com os seus colegas em Lisboa e Viena de Áustria, e entrevistava uma cantora, em italiano, pelo telefone. Mais tarde caiu a linha, a emissão continuou de Viena de Áustria. A locutora na capital austríaca estava entusiasmadíssima, de manhã e à tarde, com o que via por todo o lado: Mozarts de chocolate, pianinhos de chocolate, um cartão vestido à Mozart para meter a cabaça e tirar o retrato…coisas assim, verdadeiramente culturais.
Nos Estados Unidos, por exemplo, tanta extravagância à custa dos impostos sobre os contribuintes seria impensável.
Mas os Estados Unidos são ricos, não podem dar-se a estes pequenos luxos.
O que há, afinal de contas, comum à grandiosidade da estação ferroviária do Pinhal Novo, a compra e venda de F16, o desperdício de 2,5 milhões de euros com um projecto frustrado para o Parque Mayer, a encenação faraónica do Ouro do Reno, as andanças dos “artistas” da Antena 2 pelo mundo e arredores para passar música clássica, etc, etc, etc.?
O Ouro do Rato!

